Domingo, 22 de Janeiro de 2012
O Douro sente-se...

Para caminhar no inverno, em manhãs frias e húmidas, o percurso que, começando na Beira Rio Penha Longa, vai até Porto Antigo e volta ao ponto de partida, é dos mais bonitos e emblemáticos, não tanto pela beleza e originalidade em si, mas pelo peso que tem. Um peso que lhe é transmitido pela dimensão e pela voz grossa do rio, pela sua presença maciça cheia de água em movimento lento. Faz lembrar aquele avô antigo e enorme que guardamos nas nossas recordações de infância: mesmo não olhando para ele, sentimo-lo! E como as histórias que sabíamos que o avô carregava consigo, também as sentimos no rio. Desde a fronteira (o que se passou lá para Castela não nos interessa nada, nem ventos nem casamentos...), quantos livros o Douro escreveria para contar as aventuras, os pássaros, os barcos, as cheias, os desastres, os rabelos, as  pipas, as relações de amor e ódio com homens bravos que o enfrentavam! Quantas desgraças e actos heróicos estas águas carregam no seu movimento grosso e compacto em direcção ao mar! Acredito que, na sua inconsciência consciente, o Douro não leve consigo as histórias até as largar no mar para que se diluam e se esqueçam na imensidão... Não, o Douro guarda, o Douro diz nos seus redemoinhos que não esquece, que quer estar sempre connosco, que quer partilhar tudo o que partilhamos com ele. Sinto que o Douro sofre um sofrimento doce, é qualquer coisa de imperceptível, parece aquele sabor que fica na boca quando se bebe um "porto" de verdade, um "porto" que viajou de rabelo no seu leito! Uma manhã enevoada, sombras cinzentas de vários tons misturadas nas árvores e nas encostas que o bordejam, aquele fumo de cigarro parado que enala das águas, um pato solitário que voa rasante, tudo isto faz um quadro festivo para os sentidos e para a alma que torna este percurso inesquecível de cada vez que o fazemos.

 Mais uma vez senti tudo o que foi escrito, apesar das peripécias causadas pelo atraso crónico do Kim (adormecido decerto no meio de questões informáticas) que levou o Tiago Teixeira a dizer-me ao ouvido "vamos deitá-lo ao rio se ele ainda vier?" Vamos, claro! E arranjamos assim uma brincadeira diferente, em vez de andar a atirar laranjas ao mais distraído que vem atrás. O "irmão" Leitão levou mesmo assim com uma na cabeça (não sei quem atirou), o que lhe valeu um aviso "cuidado irmão, não caminhe debaixo das árvores!" "Pois é... obrigado pelo aviso" e olhando para cima, para um grande sobreiro plantado na encosta e debruçado sobre o caminho, "têm razão, o sobreiro até já largou as laranjas todas...". Tive pena do rio, não lhe chegam as histórias que carrega na consciência... ainda tem que levar com estas anedotas de MerdA! Mas eu sei, no entanto, que ele gosta de nós, gosta porque nós também gostamos dele.

Já no regresso, apareceu-nos o Kim a fazer o mesmo caminho, o peso na consciência foi mais forte e veio pedir desculpa! Temi no entanto pela sua vida e mantive-me atento ao Tiago Teixeira, não fosse ele querer cumprir a promessa e atirá-lo mesmo ao rio. As desculpas foram aceites e sensibilizaram-nos, mas ficou o aviso de que nunca mais esperaremos pelos atrasados: cinco minutos de tolerância e mais nada. (acho que o "irmão" Leitão vai caminhar sozinho a partir de hoje).

Uma visita no próximo domingo a Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, foi promessa feita junto as águas do Douro. Quando fazemos uma "promessia" ao avô velhinho, não podems falhar. 

 

  

as nossas almas rupestres gravadas junto ao rio           onde passa o combóio, já nós passamos...                        a "casa da roupeira"



escrito por xapim às 22:06
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Recantos de Vila Boa do Bispo (com filme)

Após algum tempo com as atenções desviadas para um projecto em curso, uma rota homologada (velho sonho) entre o mosteiro de Vila Boa do Bispo e o convento de Alpendurada, provisória ou definitivamente chamada de "Dois Rios Dois Mosteiros", as saudades da libertinagem que é uma caminhada à solta por velhos campos e caminhos com os companheiros de há tanto tempo, das conversas e asneiras com que constantemente nos agredimos, das fotos a tudo e a nada, do convívio com os amigos cães que nos falam ladrando e abanando o rabo, dos silêncios que não nos magoam... já eram tantas, tantas que, ao contrário do costume, num segundo marcamos hora e local para nos encontrarmos. Talvez o nosso recorde. Já não era sem tempo, já lá vão 13 anos a desentender-nos!

 

Logo pela manhã o Tiago Teixeira, nosso benjamim que anda agora a curtir umas caminhadas connosco, começou a sua empreitada de SMS a lembrar-me e a relembrar-me a hora a que eu tinha que o ir buscar. " Responde ao Tiago", insiste para eu não ter qualquer hipótese de me distrair e o deixar em terra. E eu não esqueço, nunca esquecerei, um colega assim, bem disposto e brincalhão, que ameniza os nossos passos e as nossas conversas, inventa e alinha nas nossas brincadeiras desde o esconde esconde até atirar uma laranja ao mais distraído que venha a trás.

Foi assim que nos juntámos às 9h00 da manhã junto à Fundação Santo António, à espera dos caminhantes Pé Ligeiro que tinham, vimos no facebook (coisa moderna que contrasta com os caminhos velhos que percorremos), combinado entre eles iniciar ali uma caminhada por terras de Vila Boa do Bispo. Da vontade de fazer uma surpresa aos colegas caminhantes (agradável ou não eles o diriam), passamos a um estado de desilusão. São tantos e não aparece nenhum? Oh Tiago o que é que achas, enganaram-nos? O Tiago pensou, mas foi rápido na resposta. "Esperem que eu já lhes vou chamar à atenção. Vou falar mesmo com o doutor quando estiver com ele."

Arrancamos sem destino, sem qualquer conversa prévia, há um magnetismo que direcciona os nossos pés e sintoniza a nossa alma. O Kim sabe, e o "irmão" Leitão não acredita, que cada um de nós é parte integrante do universo a que pertence, somos células constantemente recicladas, pertencemos à terra que pisamos e é dos seus frutos que nos alimentamos, terra por sua vez num processo de reciclagem contínua. É o sincrodestino que nos guia, nos leva pelos caminhos que devemos ir, caminheiros de ninguém, companheiros do mundo, parceiros da diferença, fogosos amantes da natureza!

Foi um passeio leve pela Lavandeira, Cavalhõezinhos, Outeiro, Cimo de Vila, Tenrais, Ausenda, Maninho, Fafiães, Ledouro... Leve porque curto, leve também porque não deu azo a grandes conversas metafísicas nem políticas, algo cansativo para o escrivão-mor que foi fazendo um registo em vídeo de várias passagens e ambientes.

Sem mais delongas, sem grandes histórias, que a dos cAmiNhEirOs de MerdA é feita de pequenas, fica aqui o apontamento em vídeo para as nossas memórias, que para as dos outros com certeza não interessa. A dedicatória vai inteirinha para o nosso recente e jovem colega e competente caminheiro Tiago Teixeira.

Tiago Teixeira (foto xapim)      O fime (realiz. xapim)



escrito por xapim às 22:06
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
Aventura alucinante num dia de chuva
"EM BUSCA DO TORTULHO ALUCINÓGENO" é o primeiro trabalho cinematográfico realizado pelos cAmiNhEirOs de MerdA. Ideia antiga, sempre com o objectivo de partilhar as nossas viagens pelos caminhos velhos da saudade, foi concretizada agora. Sem meios, sem subsídios do estado (isto é cultura meus amigos), este trabalho é prova de engenho, de arreganho e de outras coisas terminadas em anho como por exemplo cabrito (que poderá ser tema duma próxima aventura), e prova que é possível em plena crise ser criativo e vencer! Descansa o escriva, descansam os leitores:
Usufruam, desfrutem, apreciem!


escrito por xapim às 20:12
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
o último barco em bitetos



escrito por xapim às 11:11
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
Um dia na Venda da Giesta

Cai muita chuva lá fora, as lágrimas escorrem nos vidros das janelas.

Não foi assim que parti de manhã cedo a caminho do abrigo de montanha dos Amigos do rio Ovelha (AARO), sito em Venda da Giesta, serra da Aboboreira, para participar numa caminhada. Mas é neste estado que me proponho escrevinhar qualquer coisa que recorde para memória futura esta pequena viagem pela natureza e pelo Portugal que já foi.

Venda da Giesta não é propriamente um exemplo de abandono,  mas tem já em muitas passagens alguns sinais de actividades que acabaram e que davam dinâmica a estes tipos de povoados. Em compensação vêem-se algumas casas novas e restauradas, um pequeno café, uma pequena capela, que a religião já foi pão, e um miradouro de onde se avista uma paisagem abrangente para um lado e agreste para o outro, mas sempre linda, cheia, e que não deixa o coração e a mente indiferentes, mais empedernidas que sejam. Para o lado poente pode se alongar a vista numa extensão enorme, vendo-se nitidamente os enclaves, em traços brancos, cobertos pelo nevoeiro que os rios e outros cursos de água mais pequenos fabricam. Paro o nascente a paisagem é de montanha, vegetação rasteira, poucas árvores, que os incêndios levaram as outras, e penedos enormes gastos pela erosão e pela história, questionando eu sempre quem os pôs ali, tão grandes e em posições tão cómodas e tão bem encaixados que não cansa olhar... Grandes discussões com o Kim, crente nas suas teorias e tão descrente na minha sabedoria: foi o mar, foi a erosão, foram as catástrofes, foi a água... Eu sei lá, quem acabou com os dinossauros também estilhaçava grandes penedos e os punha assim em bocados dispersos ou harmoniosamente amontoados! Ou os gigantes de antanho, quando bebés, brincavam às pedrinhas e deixaram-nas assim ao acaso para os vindouros pensarem e discutirem a sua origem. Posto isto, melhor que os registos fotográficos, uma passeio descontraído num lindo dia de sol por aquela zona confirmará a pobreza da minha descrição perante a realidade que, demasiado ambiciosamente, tentei fazer o leitor imaginar.

Ao sair de casa dei de frente com um dia pintado de manhã fria de inverno, as árvores desorientadas no meio do nevoeiro que abarcava tudo numa pressa avassaladora. Peregrino que me prezo, sei no entanto que a esperança nos mantém vivos e o paraíso está sempre para cima, ou nós não olhássemos para o alto quando dele falamos. Como era montanha o destino de mais uma viagem dos cAmiNhEirOs de MerdA, eu sabia que o sol nos esperava de braços cada vez mais abertos conforme nos fossemos aproximando do destino.

Quadro pintado, o sol prometido, o Xapim e o “irmão” Leitão já juntos desde o Marco com o “judeu” Abraão, faltava o (agora também) “místico” Kim, carregado com a sua Nikon curiosa e as suas novas mensagens de sábios e profetas, para completar o quadro e fazer com que fôssemos realmente de MerdA.

Caminhar não tem história, é pôr um pé a seguir ao outro com um destino e um objectivo, se não formos loucos. Os nossos antepassados mais longínquos já caminhavam constantemente sempre á procura de alguma coisa, e nem homens se chamavam ainda! É o que se diz, o que se faz, o que se comunica, o que se partilha que dá sentido a esta actividade. E é disto que quero e gosto de falar, ou escrever neste caso, mas já vou em 572 palavras de rodeios e não consigo pegar no fio da meada.

Também não será importante, cada um dos muitos caminheiros fez a sua história neste percurso, guardou as suas memórias, teve as suas vivências, conviveu e partilhou com os outros. Cada um fez o seu próprio risco no mapa de vida lhe está destinado percorrer.

O almoço e o magusto, tão carinhosa e esforçadamente preparados pelos Amigos do Rio Ovelha, foram a coroa de glória que culminou o fecho das actividades desta colectividade. As fêveras tão bem preparadas pelo “Rafael”, o vinho que nascia de garrafas e garrafões e gerava comentários e conselhos de vários entendidos, foram o mel depois das agruras depressa esquecidas. O “judeu” Abraão circuncidado, num gesto bíblico, pregava as suas anedotas para um grupo avantajado de pessoas que o cercavam e faziam das gargalhadas a sua oração. O “irmão” Leitão exercitava o seu humor fino com os acontecimentos, e o Kim dedicava-se à sua pregação ou… à Nikon. O feitor destas letras, perturbado por um turbilhão de pensamentos e ideias, ia percorrendo o ambiente fugindo dos percalços como um poeta foge do que lhe provoca saudade, como uma borboleta insatisfeita que poisa aqui e ali, deslocado por querer sempre mais e nunca estar satisfeito aqui… pois sabe que há sempre o ali. Coisas. E à volta toda a gente a divertir-se, as concertinas desafiavam-se, os pares rodopiavam, as castanhas ainda passavam de mão em mão… Faltava o bolo, o prometido, o aliciante, pensava eu até que pudesse ter sido desviado por um vírus qualquer, quando fui acordado e levado em mão até ao dito. Partilhei (e agradeci) o momento e o bolo com os amigos, “e era tudo muito bom” digo eu como Deus disse.

A nostalgia do fim misturou-se com o pôr-do-sol e a saudade da partida. É assim um peregrino, embora haja sempre mais caminhos. 

Pronto, estraguei tudo como de costume…


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escrito por xapim às 17:22
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Domingo, 23 de Outubro de 2011
Um biteto, dois Bitetos, três... Ou "O ÚLTIMO BARCO EM BITETOS"

 Joguei em casa. O Kim, militante caminheiro como é, e com um fé capaz de remover montanhas, encostas, rampas, declives e altos, desceu à civilização para fazermos um pequeno passeio por zonas de Várzea e Alpendurada. O que é bom é o que os outros têm, por esse motivo é difícil à partida descortinar um interesse peculiar para descrever uma volta por estas bandas, passe embora a capacidade e imaginação deste autor que já foi capaz de quase fazer epopeias de pequenos passeios por terras insignificantes e cheias de caminhos e casas velhas. Mas tenho que confessar aqui, porque sou orgulhoso da minha humildade (!), que fizemos duas caminhadas memoráveis e das quais nunca tive coragem de escrever uma letra pequenina que fosse: quando fomos a Mafómedes, Baião, e Aldeia de Pena/Covas do Monte, S.Pedro do Sul. O que vi e senti nestes dois locais foi demasiado violento, a beleza que apalpei foi demasiado grandiosa, as pessoas com quem falei foram tão superiores, que me senti, como sinto ainda hoje, completamente desarmado e incapaz de sequer imaginar uma frase que fosse capaz de enganar uma criança! Há coisas que não cabem em palavras, parece como quando queremos explicar Deus por aquilo que entendemos e não por aquilo que nos ensinaram. E lembrando-me do que o mestre Miguel Torga (tão injustiçado pelo nosso esquecimento...), tem escrito numa placa no alto do monte São Leonardo em Galafura, Régua, então quem sou eu para balbuciar uma reticência que seja? Atrevo-me a por aqui, curvando-me em grande respeito, duas passagens:

 

 "O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza" e "Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro"

 

 E com alguma habilidade consegui enriquecer este texto, dado a falta de imaginação ou de conhecimentos para descrever a caminhada deste dia. Sei que há muita história pelos lugares por onde passei, Crespos, Chaim, Gandra, Bouça, Geraço e... Bitetos, principalmednte este (ou estes? não são dois?). Mas, como disse anteriormente, o dos outros é que é bom e interessante, e sei mais das outras terras por onde passo do que daquela onde vivo. Por isso sou de MerdA, pronto, está dito. E confesso também que fui pela web buscar "Bitetos" na intenção de algumas dicas que demonstrassem a minha vasta cultura... Também já está dito. Embora pouco não foi pelo menos tempo perdido, porque acabei por verificar que há alguém que tem acervo ou o faz publicar com histórias da importância actual e já antiga de Bitetos.

Passámos, este humilde escriva e o Kim fotógrafo pintor e caminheiro, uma manhã agradável a fugir e a fintar a chuva que dizia que vinha e não vinha, falando de política, de medos e de religiões, e sempre atentos aos espectáculos que a natureza e os pequenos recantos de Bitetos nos punham à frente dos olhos. Nem as historinhas de gentes e locais que eu ia contando feito cicerone distraíam as câmaras fotográficas, sempre apontadas às curvas do Douro ou às flores que carinhosmente enfeitam os jardins das casas por onde passávamos.

Não querendo passar sem um pequeno contributo pessoal para a história deste local, vou publicar aqui uma foto minha, já com alguns anos, dum barco em construção junto ao cais de Bitetos.

E finalisando, com a minha mania e jeito especial de estragar sempre o que faço de belo e útil, quero deixar umas perguntas: quem fez este barco? Será que ainda navega as águas do Douro? Será que, ainda existindo, terá histórias macabras para contar? Será que levou muita gente para a outra margem, seja ela qual for?

E nasce-me a ideia para um filme: "O ÚLTIMO BARCO EM BITETOS" Vou já falar com o mestre Manoel de Oliveira.

 

 (FOTO XAPIM)

 



escrito por xapim às 21:45
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Domingo, 16 de Outubro de 2011
É devido...

...o prometido, claro. Também é devido pagar o que devemos, por isso Portugal está tão à rasca! Assim não estão os cAminHEiRos de MerdA para cumprir uma visita a Sanguinhedo e Contença, Cinfães, como no post de 17 de setembro ficou combinado.

A meio de Cinfães entramos no primeiro caminho velho que encontramos, é este o nosso destino... Pisar as ervas que ninguém pisa, olhar as flores silvestres que ninguém olha, ouvir pássaros que os ruídos do mundo não deixam ninguém ouvir, provar as frutas originais e saborosas que as árvores oferecem mas toda a gente vai comprar ao supermercado. Move-nos a autenticidade das coisas esquecidas, do espontâneo, move-nos a beleza em bruto, move-nos o cheiro do Portugal antigo que os nossos bisavós com tanta sabedoria e sacrifício construiram numa sintonia perfeita com a natureza. Os muros dos caminhos estreitos, as ramadas, os palheiros, as videiras idosas, as pessoas que ainda carregam consigo o espírito de uma aldeia que já não existe, os cães que nos ladram e abanam o rabo a dizer que nos estão a cumprimentar, são fotografias que tiramos e gravamos no nosso disco para nos acompanharem no dia a dia dum mundo ingrato ali mesmo ao lado! Calçamos as botas todos os domingos de manhã para sermos peregrinos em direcção a um santiago de compostela que já não existe mas que vamos encontrando nestes recantos perdidos. Somos romeiros e responderemos "ninguém" a quem nos pergunte quem somos.

Regressado da Hungria onde foi participar (!...) na maratona de Budapeste (que caMiNHeiRo de MerdA não é só caminheiro) o "irmão" Leitão começou a lançar a sua Nikkon em direcção a todas as flores que encontrava e às borboletas que ainda vagueiam por aí. As paisagens vistas da parte de cima de Cinfães até ao rio Douro, e as encostas já do outro lado, tudo semeado de casario e verdura, são uma tentação mesmo para a Nikkon do Kim, retratista sempre atento a momentos de beleza que gosta de partilhar no sapo.fotos ou no olhares.com. Entre fotos e provas de figos e uvas de fino sabor que ainda restam do parto da natureza, temos conversas profundas sobre temas dos mais diversos, dos quais não percebemos nada mas sobre os quais fazemos profundas reflexões. A visão do que é Deus é o tema perferido do Kim, militante leitor de tudo o que se refere à explicação do significado da vida e sua origem e destino, sobretudo no que ao Homem diz respeito. É um tema complicado que assusta o Xapim, mais duvidoso e inseguro do que entendido nestes assuntos, e que o irmão Leitão encara mais com um realismo e certeza de que não é muito importante para ele. Visões diferentes, pontos de vista quase antagónicos, mas que nos mantêm sempre de acordo. É este o nosso destino, esfarrapados de espírito e tristes caminheiros.

Quase sem nos darmos conta, deparamo-nos com um dilema: chegamos ao local onde havia duas estradas, uma para Sanguinhedo e outra para Contença.

 O dilema (foto Xapim)

Discutíamos a questão sem conseguir a maioria absoluta para nenhum dos lados, e já falávamos novamente de Deus quando nos demos conta que já seguíamos em direcção a Sanguinhedo. É assim que funcionamos, numa coexistência pacífica que só pode ser obra do sincrodestino de que fala um dos livros que o Kim me emprestou para ler.

E Sanguinhedo à vista. Silêncio, solidão e calmaria foi o primeiro impacto à entra da pacata aldeia. Não víamos pessoas (para a missa com certeza), mas deliciamos a vista com os prados floridos e verdes que ladeavam a estrada estreita que a atravessava, onde algumas borboletas esvoaçavam em controlo aéreo da sua zona de responsabilidade. Não vimos as casas velhas que esparávamos e as pessoas com quem gostarímos de trocar duas palavras, mas respiramos aquele ar que a montanha sabe oferecer melhor que ninguém e que estes tristes caminheiros ali perdidos também mereciam.

O dilema que nos apoquentava deixou de o ser, e o desgosto de não poderemnos visitar as duas aldeias no mesmo dia também ficou minorado quando verificamos que à nossa direita, mais urbana e aparentemente populosa, se avistava Contença! Pareceu-nos avistar uma torre de igreja e ouvir um sino, se calhar a justificação para a notada ausência de pessoas. E concluímos, nós que somos tristes mas não palermas, que a capital de Sanguinhedo e Contença é Contença, como Ouagadougou é a capital do Burkina Faso.

     À entrada de Sanguinhedo                                             O prado florido                                                 Vista de Contença

         

 É muito o que Portugal nos oferece, é quase demasiado o que a natureza nos põe à frente dos olhos, fica quase bêbada a nossa alma caminheira com tanta fartura! Uma coisa no entanto é inexorável e nos deixa impotentes: o tempo. É a hora de regressar e também de ir acabando este texto que, parecendo tamanho, quase tudo deixa por contar: é a alma dum cAmInHeiRo de MerdA sempre insatisfeita.

No regresso, o encontro inevitável com um dos nosso irmãos mais fiéis nestas andanças: um cão. Ladram bravos ao nosso encontro, com uma bravura que, acreditamos, é a maneira de expressarem a alegria de nos verem tal é a rapidez com que mudam a sua atitude e abanam o rabo num abraço de velhos colegas de caminhada que se encontram passado muito tempo. Entregam-se e alguns até nos acompanham pelos caminhos velhos que pisamos, cães como nós!

Adeus Sanguinhedo e Contença: havemos de voltar!

       O irmão cão (o castanho, claro!)                                    O irmãozinho cãozinho                                                       Árvore exibicionista



escrito por xapim às 00:44
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
Caminho do rio

 Com o elemento sénior dos cM®þA deslocado a Budapeste (Hungria) em representação do grupo, fui com o retratista/motard/pintor Kim Freitas participar numa caminhada organizada pela AARO, e que constava dum percurso linear que, partindo do alto de Montedeiras, acabava junto ao rio Douro e está baptizado de "Caminho do Rio".

E pronto, está contado. Simples, conciso. E sem mais interesses.

Mas não quero deixar aqui um post assim tão pobrezinho como a caminhada que o origina, e também não quero arriscar o meu prestígio como escriva espalhando palha disfraçada em palavras para simplesmente fazer linhas de texto.

E então, a borboleta que ilustra o início deste texto foi a primeira e quase única emoção séria que tive e que é expectável neste tipo de actividades. Bonita, brincou comigo durante uns metros, pousando e fugindo, fazendo pose e voando com graciosidade quando se apercebia do momeno do disparo. Este namoro durou algum tempo e eu apreciei-o, pois fiz parte da caminhada sózinho e isolado e isto ajudou-me a sacudir pensamentos menos positivos que nestas alturas assaltam qualquer luso atento à situaçãp do país. Finalmente, culminando este namoro sério, a pose certa e o clic no momento exacto. Mas foi muito pouco, comparando com caminhadas antigas por estes lados em que o contacto com a natureza e as suas graças genuínas, louva-a-deus, flores pintadas com cores brilhantes por artista desconhecido, pássaros cantores preenchendo espaço verde exuberante, coelhos reprodutores animando a solidão calma, era muito mais frequente e agradável. Coisas da chamada "evolução" mas que não passa de destruição do que durante muitos séculos o homem soube respeitar e partilhar.

Outro facto que quero arquivado nesta história e que esta caminhada registou, foi a descoberta do "vírus" que algumas vezes assaltou este blog. Descobri a origem do "leonor", nome giro para um "vírus" seguindo o método com que se baptizam os tornados e tempestades que de vez em quando assolam as costas da América... Já tinha feito uma tentativa de resolução do problema, aplicando um software antivirus chamado "aranha de merda", e esta caminhada ajudou-me a concluir que a escolha foi acertada visto a medida ter sido eficaz.

Como uma manhã de domingo podia ter sido para esquecer, como um texto condenado a não ter qualquer interesse fala duma borboleta e dum "vírus" chamado "leonor", como a habilidade desperdiçada de um pobre escriva consegue iludir quem pensava que daqui ia sair alguma coisa.

Vou ouvir Léo Ferré, para que o tempo tudo leve...

 



escrito por xapim às 18:45
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
Cinfães e Serpa Pinto

Como passar um domingo de manhã em Setembro, céu muito limpo e muito azul: ir para as margens do rio Bestança. Foi essa pelo menos a minha ideia e do camarada Kim (o Leitão foi para as maratonas lá para os lados da invicta), só que ao chegarmos à ponte de Pias lembrei-me eu duma exposição de fotografias, cujo tema era precisamente o vale do Bestança, no museu Serpa Pinto na vila de Cinfães. O Kim até tinha recebido um convite via correio electrónico.

E lá fomos por vias e atalhos, que o Kim conhece como ninguém, até à entrada da vila. Mais uma visita e mais uma vez positivamente impressionados com a sua pacatez, limpeza, bom aspecto, edifícios bem restaurados, jardins, fontanários, uma bela Igreja... Quem diria que Portugal está em crise... A sensação é boa quando se está em Cinfães, e apetece lá voltar com calma para usufruir uma manhã inteira de tudo o que nos pode oferecer, mesmo numa das várias pastelarias que se encontram no centro onde, além de consolar o gosto e o olfacto com os belos e cheirosos pastéis que expõem, podemos também consolar a vista pelo seu aspecto e disposição em edifícos bem restaurados. Muito agradável.

Fomos directos ao Museu que, claro, estava fechado! Mas nada derrota um cAmInHEirO de MerdA, logo ali ao lado havia um caminho velho e estreito e foi por onde seguimos, é precisamente dos que gostamos. Para o lado sul da vila é uma encosta de serra sempre a subir, ruas muito estreitas, casas muito pequenas e antigas mas arranjadinhas, portas de entrada e escadas estreitas encaixadas em pequenos espaços, piso em cimento ou granito com ou sem escadas também, cenário que nos faz sempre regressar a um passado que se crê feliz: mais pobre mas de muito mais comunhão, alegria e convívio. É uma sensação muito boa, sinto-me quase em partilha com esse tempo nestas alturas.

Os cães ladravam à nossa passagem, mais como cumprimento porque nos reconheciam a bondade do que como aviso para nos afastarmos. Há uma sintonia entre um cAmiNHeiRo de MerdA e os cachorros já provada por largos quilómetros e inúmeros encontros com eles nas mais diversas situações e locais; não esqueço aquele cão especial que nos acompanhou numa caminhada histórica na Pala atravesssando as duas pontes do caminho de ferro, correndo perigos connosco e despedindo-se depois no fim com um olhar triste e de repreensão por o termos deixado na sua vida de vagabundo. Fomos caminhando à sorte por uma estrada de alcatrão, controlando o tempo para o regressar em tempo útil para o almoço familiar de domingo, e controlando também uma figueira carregada de pequenas delícias, riqueza abandonada e chamativa para um caminheiro que passa. Num cruzamento, duas placas indicavam para uma estrada secundária duas povoações, Sanguinhedo e Contença, que nos aguçaram a curiosidade. Sem mapa nem GPS, resolvemos deixar para uma nova caminhada a descoberta dessas duas localidades, que pela sua localização nos vão dar de certeza surpresas agradáveis. Uma aventura para o futuro.

Já em casa, consultando a net verificamos que o museu abriria de tarde, que Serpa Pinto foi militar e geógrafo e que Sanguinhedo e Contença ainda ficavam um bocadinho longe do local até onde caminhamos. Rotos caminheiros mas cultos, voltamos de tarde a Cinfães para a visita ao museu. Em exposição, além de várias referências à vida de Serpa Pinto, belas fotos e registos da fauna e da flora do vale do Bestança, ressaltando à vista a engenharia cromática das borboletas. Parabéns Rafa Moreira. Também ressaltou à vista a falta de um livro de visitas.

Cinfães é Portugal, senhores ministros de Lisboa, ouviram?

   



escrito por xapim às 19:33
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Nova versão do hino do "caminheiro"

 É uma delícia ouvir isto... E para não haver desculpas, segue a letra novamente e, perfeccionismo,também as pautas para guitarra.

(se alguém pretender para cavaquinho ou teclado, também fornecemos)  

E               G#m                    A                    G#m

Caminheiro que lá vai indo, pro rumo da minha terra

        A                   G#m      E                                 E7    E

Por favor faça parada, na casa branca da serra

 E7                      E               E7                E

Ali mora uma velhinha, chorando o filho seu

          E7                    E            A                E

Essa velha é minha mãe, e o seu filho sou eu

 

 A                            E             B7                 E

Vaaaaaaai, caminheiro, leva esse recado meu

 

(solo do início)

                              G#m           A                   G#m

Por favor diga pra mãe, zelar bem do que é meu

             A                   G#m                E                           E7    E

Cuidar bem do meu cavalo, que o finado pai me deu

       E7                          E              E7                     E

Do meu cachorro campeiro, meu galo índio brigador

           E7               E                   A              E

Minha velha espingarda, e o violão chorador

 A                           E             B7               E

Vaaaaaaai, caminheiro, me faça este favor

 

(solo do início)

                                 G#m          A                 G#m

Caminheiro diga pra mãe, para não se preocupar

        A                      G#m         E                                 E7    E

Se Deus quiser este ano, eu consigo me formar

      E7                            E              E7                 E

Eu pegando o meu diploma, vou trazer ela pra cá

        E7                              E             A                           E

Mas se eu for mal nos estudos, vou deixar tudo e volto lá

 

A                             E                 B7                 E

Ooooooooi, caminheiro, não esqueça de avisar (3x)  

 (pautas para guitarra)



escrito por xapim às 13:59
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