Porto de importancia económica em tempos idos, Bitetos é hoje um local que se está a tornar "cool", usando termo em voga. Turismo fluvial com grandes barcos carregados de turistas de todo o mundo que acostam no cais, praia, marina, motas de água... Mas há ainda resquícios de algumas actividades já praticamente desaparecidas: o barqueiro que atravessa o rio com pessoas e cargas. Tive hoje, no entanto, o privilégio de assistir a uma cena destas e, apanhado desprevenido, consegui no entanto apanhar a parte final e alguns gestos do barqueiro no ambiente bucólico duma manhã de sol e calmaria. O céu espalhando azul na água e o rio sentindo a saudade a cada toque do remo, a história a esvair-se nas pequenas ondas provocadas pelo vento, o barco acostado a pedir a reforma e o barqueiro a insistir na escrita da sua vida até à última letra do abecedário! A diversão via-se nos patos, mas a paz inundava tudo o resto. Eu senti-a fazendo-me parte disto tudo, parte que sou.
Numa visita à Capital Europeia da Cultura, que se ficou pela Serra da Penha, verficamos que a cultura do calhau também é importante. Seja pela religiosidade, pelo risco, pelo mistério, pelo misticismo, pela lenda. E nós provamos que o "penedo que abana" abana mesmo e não é lenda!
A cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade” (Edward B. Tylor).
Foi à procura disto que fomos até Guimarães, capital europeia da dita. Aliás, é à procura disto que andamos há 13 anos pelos caminhos velhos deste país, à procura da cultura própria deste povo tão desprezada e esquecida pelas actuais gerações normalizadas. A riqueza dum povo é o que lhe é peculiar e específico, é a sua história, a sua diferença. O hambúrguer é igual em Lisboa e em Tókio (e não presta...), o caldo verde é único no mundo e é português (e que bom...). Quem visita Portugal o que procurará, um snack bar ou uma tasca? Se quiser enriquecer a sua cultura, procurará uma tasca e uma sardinha assada, ou continuará burro como antes.
E com o bornal cheio de cultura, uns rissóis, umas tangerinas portuguesas, duas garrafinhas de vinho verde branco da quinta de Crespos, partimos à conquista de Guimarães, nem que necessário fosse bater na mãe! Fugimos das auto estradas normalizadoras e fomos espalhando a vista pelos campos onde vimos carros de bois a ranger por caminhos estreitos, chaminés a fumegar ternura em fins de tarde, e ouvimos cantaréus ao desafio em vindimas de vida e trabalho. Sim, não vimos nem ouvimos, mas imaginamos.
Nos nossos planos levavamos uma caminhada pelo alto da Penha durante a manhã, um almoço campestre debaixo duma árvore frondosa, e depois sim, um passeio pela urbe que foi berço dum país.
Mal começamos a caminhar, ficamos encantados e pasmados com a irresponsabilidade de alguém que se dispôs a brincar com rochas enormes atirando-as à sorte pelas encostas do monte e, não contente ainda, foi colocar algumas em posições estranhas e perigosas, mal seguras, à espera dum pequeno toque para desmoronarem ou para abanarem como se de um pequeno berço se tratasse. (será daqui o berço da nação?!) Obra de Deus ou do diabo, ou de homens loucos, não faltam passagens estreitas com pedregulhos mal seguros por cima, grutas, capelas escavadas na rocha, fontes, escadinhas, tudo com nome de santos. A começar pela capela de S. Cristóvão que dá abrigo a outros santos protectores de quem conduz carros, barcos ou aviões... Nossa Senhora do Ar que vela para que os aviões não caiam, e Nossa Senhora do Mar para que os barcos não afundem. E nós, os caminheiros? Não voamos nem afundamos, mas podemos tropeçar, não é? Pois... ficamos a pensar, a pensar e nasceu-nos uma ideia: porque não uma imagem do S. Cricalho, padroeiro específico dos CAmINhEIrOs de MerdA, também nesta capela? Será demais? Pelo menos uma gruta, uma fonte, um penedo, não? Há o penedo do susto, há o desfiladeiro, há o penedo do barco, o penedo da mitra, porque não qualquer coisa S.Cricalho? Vamos qualquer dia fazer justiça.
Percorremos todos os cantinhos, subimos e descemos todas as escadinhas, passamos os desfiladeiros, entramos nas passagens estreitas (menos o "irmão" Leitão que não cabia), corremos perigos vários por baixo de pedras mal seguras, subimos e descemos todos os sonhos à procura de gigantes ou explicações para este cenário. Cada caminho levava a um sítio diferente, ou talvez o mesmo, que os penedos tinham formas e aspectos diferentes conforme o ponto de vista. Mas não deixavam de ser penedos nem deixavam de ser mistérios para nós, que para outros não, pois lá punham santos e milagres, capelas e fontes sagradas. Eu pessoalmente via uma paisagem celta, um bosque com árvores cheias de musgo, rochas enormes e recantos misteriosos onde os druidas se passeavam e escondiam observando-nos com ar estranho. Senti-me extraterrestre e órfão das explicações cósmicas do Kim, que desta vez não nos acompanhou. O alto da Penha deu-nos fome, e o frango com molho de limão que nos esperava no Pingo Doce espantou-nos na descida e matou-nos os problemas místicos.
Mesmo junto ao castelo, assentamos arraiais e tuperwares, bolinhos de bacalhau e frango saboroso e, observando-o em contra luz recortando o céu azul em forma de ameias, atacamos com fúria o vinho de Crespos...
Começamos a tarde com uma visita ao castelo que achamos bonito diga-se, com umas linhas simples mas enquadradas e harmónicas, nada a ver com esses prédios modernos quadrados como quem os desenhou. O D. Afonso Henriques bateria em alguém como bateu na mãe ao ver a arquitectura actual... Sem cobertura no interior, a imaginação fazia o resto: as donzelas passeando-se nos seus vestidos de veludo compridos, os pajens perseguindo-as com piropos medievais, os guerreiros treinando entre si lutas com infiéis, e, lá em cima na sala, o primeiro rei de Portugal discutia em altos berros com a mãe. Uma donzela mais moderna e com um vestido muito mais curto, acordou-nos desta imaginação... e começamos a ver então no palácio dos duques uma fábrica de confecções, com chaminés e tudo, as quezílias do rei com a mãe simples questões de heranças e partilhas e, blasfémia das blasfémias, descortinamos na famosa estátua do D.Afonso uma pose pouca consentânea com a imagem de alguém que se dizia guerreiro e conquistador: afinal fomos à capital europeia da cultura para descobrir o primeiro Gay de Portugal!
Ficamos pouco sérios a partir dali, e começamos a falar alto a nossa loucura na tentativa de a partilharmos e trazermos para o nosso lado alguns das centenas de visitantes que connosco se cruzavam, mas, perante a sua indiferença, começamos a desconfiar mas é do vinho branco de Crespos. Uma senhora que se encontrava junto a estátua, ouvindo a nossa teoria benzeu-se e desceu os degraus dois a dois. Nós olhamos para a fábrica de confecções e encolhemos os ombros...
Passando pelo centro mais concorrido da cidade, vimos muita gente passeando pelas ruas, vimos monumentos e um casal de jovens espanhóis a cantar uma cantiga de um tal "pajarito" com uma guitarra e um violino... muito pouco para uma cultura que se quer também de rua, de partilha descontraída com todos, exactamente o que quisemos fazer junto à estátua.
Deixamos a cultura e a cidade, deixamos o berço e o rei a discutir com a mãe... e uma decisão tomada: este será o penedo do nosso padroeiro S.Cricalho, que não é menos que os outros!
Para caminhar no inverno, em manhãs frias e húmidas, o percurso que, começando na Beira Rio Penha Longa, vai até Porto Antigo e volta ao ponto de partida, é dos mais bonitos e emblemáticos, não tanto pela beleza e originalidade em si, mas pelo peso que tem. Um peso que lhe é transmitido pela dimensão e pela voz grossa do rio, pela sua presença maciça cheia de água em movimento lento. Faz lembrar aquele avô antigo e enorme que guardamos nas nossas recordações de infância: mesmo não olhando para ele, sentimo-lo! E como as histórias que sabíamos que o avô carregava consigo, também as sentimos no rio. Desde a fronteira (o que se passou lá para Castela não nos interessa nada, nem ventos nem casamentos...), quantos livros o Douro escreveria para contar as aventuras, os pássaros, os barcos, as cheias, os desastres, os rabelos, as pipas, as relações de amor e ódio com homens bravos que o enfrentavam! Quantas desgraças e actos heróicos estas águas carregam no seu movimento grosso e compacto em direcção ao mar! Acredito que, na sua inconsciência consciente, o Douro não leve consigo as histórias até as largar no mar para que se diluam e se esqueçam na imensidão... Não, o Douro guarda, o Douro diz nos seus redemoinhos que não esquece, que quer estar sempre connosco, que quer partilhar tudo o que partilhamos com ele. Sinto que o Douro sofre um sofrimento doce, é qualquer coisa de imperceptível, parece aquele sabor que fica na boca quando se bebe um "porto" de verdade, um "porto" que viajou de rabelo no seu leito! Uma manhã enevoada, sombras cinzentas de vários tons misturadas nas árvores e nas encostas que o bordejam, aquele fumo de cigarro parado que enala das águas, um pato solitário que voa rasante, tudo isto faz um quadro festivo para os sentidos e para a alma que torna este percurso inesquecível de cada vez que o fazemos.
Mais uma vez senti tudo o que foi escrito, apesar das peripécias causadas pelo atraso crónico do Kim (adormecido decerto no meio de questões informáticas) que levou o Tiago Teixeira a dizer-me ao ouvido "vamos deitá-lo ao rio se ele ainda vier?" Vamos, claro! E arranjamos assim uma brincadeira diferente, em vez de andar a atirar laranjas ao mais distraído que vem atrás. O "irmão" Leitão levou mesmo assim com uma na cabeça (não sei quem atirou), o que lhe valeu um aviso "cuidado irmão, não caminhe debaixo das árvores!" "Pois é... obrigado pelo aviso" e olhando para cima, para um grande sobreiro plantado na encosta e debruçado sobre o caminho, "têm razão, o sobreiro até já largou as laranjas todas...". Tive pena do rio, não lhe chegam as histórias que carrega na consciência... ainda tem que levar com estas anedotas de MerdA! Mas eu sei, no entanto, que ele gosta de nós, gosta porque nós também gostamos dele.
Já no regresso, apareceu-nos o Kim a fazer o mesmo caminho, o peso na consciência foi mais forte e veio pedir desculpa! Temi no entanto pela sua vida e mantive-me atento ao Tiago Teixeira, não fosse ele querer cumprir a promessa e atirá-lo mesmo ao rio. As desculpas foram aceites e sensibilizaram-nos, mas ficou o aviso de que nunca mais esperaremos pelos atrasados: cinco minutos de tolerância e mais nada. (acho que o "irmão" Leitão vai caminhar sozinho a partir de hoje).
Uma visita no próximo domingo a Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, foi promessa feita junto as águas do Douro. Quando fazemos uma "promessia" ao avô velhinho, não podems falhar.
as nossas almas rupestres gravadas junto ao rio onde passa o combóio, já nós passamos... a "casa da roupeira"
Após algum tempo com as atenções desviadas para um projecto em curso, uma rota homologada (velho sonho) entre o mosteiro de Vila Boa do Bispo e o convento de Alpendurada, provisória ou definitivamente chamada de "Dois Rios Dois Mosteiros", as saudades da libertinagem que é uma caminhada à solta por velhos campos e caminhos com os companheiros de há tanto tempo, das conversas e asneiras com que constantemente nos agredimos, das fotos a tudo e a nada, do convívio com os amigos cães que nos falam ladrando e abanando o rabo, dos silêncios que não nos magoam... já eram tantas, tantas que, ao contrário do costume, num segundo marcamos hora e local para nos encontrarmos. Talvez o nosso recorde. Já não era sem tempo, já lá vão 13 anos a desentender-nos!
Logo pela manhã o Tiago Teixeira, nosso benjamim que anda agora a curtir umas caminhadas connosco, começou a sua empreitada de SMS a lembrar-me e a relembrar-me a hora a que eu tinha que o ir buscar. " Responde ao Tiago", insiste para eu não ter qualquer hipótese de me distrair e o deixar em terra. E eu não esqueço, nunca esquecerei, um colega assim, bem disposto e brincalhão, que ameniza os nossos passos e as nossas conversas, inventa e alinha nas nossas brincadeiras desde o esconde esconde até atirar uma laranja ao mais distraído que venha a trás.
Foi assim que nos juntámos às 9h00 da manhã junto à Fundação Santo António, à espera dos caminhantes Pé Ligeiro que tinham, vimos no facebook (coisa moderna que contrasta com os caminhos velhos que percorremos), combinado entre eles iniciar ali uma caminhada por terras de Vila Boa do Bispo. Da vontade de fazer uma surpresa aos colegas caminhantes (agradável ou não eles o diriam), passamos a um estado de desilusão. São tantos e não aparece nenhum? Oh Tiago o que é que achas, enganaram-nos? O Tiago pensou, mas foi rápido na resposta. "Esperem que eu já lhes vou chamar à atenção. Vou falar mesmo com o doutor quando estiver com ele."
Arrancamos sem destino, sem qualquer conversa prévia, há um magnetismo que direcciona os nossos pés e sintoniza a nossa alma. O Kim sabe, e o "irmão" Leitão não acredita, que cada um de nós é parte integrante do universo a que pertence, somos células constantemente recicladas, pertencemos à terra que pisamos e é dos seus frutos que nos alimentamos, terra por sua vez num processo de reciclagem contínua. É o sincrodestino que nos guia, nos leva pelos caminhos que devemos ir, caminheiros de ninguém, companheiros do mundo, parceiros da diferença, fogosos amantes da natureza!
Foi um passeio leve pela Lavandeira, Cavalhõezinhos, Outeiro, Cimo de Vila, Tenrais, Ausenda, Maninho, Fafiães, Ledouro... Leve porque curto, leve também porque não deu azo a grandes conversas metafísicas nem políticas, algo cansativo para o escrivão-mor que foi fazendo um registo em vídeo de várias passagens e ambientes.
Sem mais delongas, sem grandes histórias, que a dos cAmiNhEirOs de MerdA é feita de pequenas, fica aqui o apontamento em vídeo para as nossas memórias, que para as dos outros com certeza não interessa. A dedicatória vai inteirinha para o nosso recente e jovem colega e competente caminheiro Tiago Teixeira.
Cai muita chuva lá fora, as lágrimas escorrem nos vidros das janelas.
Não foi assim que parti de manhã cedo a caminho do abrigo de montanha dos Amigos do rio Ovelha (AARO), sito em Venda da Giesta, serra da Aboboreira, para participar numa caminhada. Mas é neste estado que me proponho escrevinhar qualquer coisa que recorde para memória futura esta pequena viagem pela natureza e pelo Portugal que já foi.
Venda da Giesta não é propriamente um exemplo de abandono, mas tem já em muitas passagens alguns sinais de actividades que acabaram e que davam dinâmica a estes tipos de povoados. Em compensação vêem-se algumas casas novas e restauradas, um pequeno café, uma pequena capela, que a religião já foi pão, e um miradouro de onde se avista uma paisagem abrangente para um lado e agreste para o outro, mas sempre linda, cheia, e que não deixa o coração e a mente indiferentes, mais empedernidas que sejam. Para o lado poente pode se alongar a vista numa extensão enorme, vendo-se nitidamente os enclaves, em traços brancos, cobertos pelo nevoeiro que os rios e outros cursos de água mais pequenos fabricam. Paro o nascente a paisagem é de montanha, vegetação rasteira, poucas árvores, que os incêndios levaram as outras, e penedos enormes gastos pela erosão e pela história, questionando eu sempre quem os pôs ali, tão grandes e em posições tão cómodas e tão bem encaixados que não cansa olhar... Grandes discussões com o Kim, crente nas suas teorias e tão descrente na minha sabedoria: foi o mar, foi a erosão, foram as catástrofes, foi a água... Eu sei lá, quem acabou com os dinossauros também estilhaçava grandes penedos e os punha assim em bocados dispersos ou harmoniosamente amontoados! Ou os gigantes de antanho, quando bebés, brincavam às pedrinhas e deixaram-nas assim ao acaso para os vindouros pensarem e discutirem a sua origem. Posto isto, melhor que os registos fotográficos, uma passeio descontraído num lindo dia de sol por aquela zona confirmará a pobreza da minha descrição perante a realidade que, demasiado ambiciosamente, tentei fazer o leitor imaginar.
Ao sair de casa dei de frente com um dia pintado de manhã fria de inverno, as árvores desorientadas no meio do nevoeiro que abarcava tudo numa pressa avassaladora. Peregrino que me prezo, sei no entanto que a esperança nos mantém vivos e o paraíso está sempre para cima, ou nós não olhássemos para o alto quando dele falamos. Como era montanha o destino de mais uma viagem dos cAmiNhEirOs de MerdA, eu sabia que o sol nos esperava de braços cada vez mais abertos conforme nos fossemos aproximando do destino.
Quadro pintado, o sol prometido, o Xapim e o “irmão” Leitão já juntos desde o Marco com o “judeu” Abraão, faltava o (agora também) “místico” Kim, carregado com a sua Nikon curiosa e as suas novas mensagens de sábios e profetas, para completar o quadro e fazer com que fôssemos realmente de MerdA.
Caminhar não tem história, é pôr um pé a seguir ao outro com um destino e um objectivo, se não formos loucos. Os nossos antepassados mais longínquos já caminhavam constantemente sempre á procura de alguma coisa, e nem homens se chamavam ainda! É o que se diz, o que se faz, o que se comunica, o que se partilha que dá sentido a esta actividade. E é disto que quero e gosto de falar, ou escrever neste caso, mas já vou em 572 palavras de rodeios e não consigo pegar no fio da meada.
Também não será importante, cada um dos muitos caminheiros fez a sua história neste percurso, guardou as suas memórias, teve as suas vivências, conviveu e partilhou com os outros. Cada um fez o seu próprio risco no mapa de vida lhe está destinado percorrer.
O almoço e o magusto, tão carinhosa e esforçadamente preparados pelos Amigos do Rio Ovelha, foram a coroa de glória que culminou o fecho das actividades desta colectividade. As fêveras tão bem preparadas pelo “Rafael”, o vinho que nascia de garrafas e garrafões e gerava comentários e conselhos de vários entendidos, foram o mel depois das agruras depressa esquecidas. O “judeu” Abraão circuncidado, num gesto bíblico, pregava as suas anedotas para um grupo avantajado de pessoas que o cercavam e faziam das gargalhadas a sua oração. O “irmão” Leitão exercitava o seu humor fino com os acontecimentos, e o Kim dedicava-se à sua pregação ou… à Nikon. O feitor destas letras, perturbado por um turbilhão de pensamentos e ideias, ia percorrendo o ambiente fugindo dos percalços como um poeta foge do que lhe provoca saudade, como uma borboleta insatisfeita que poisa aqui e ali, deslocado por querer sempre mais e nunca estar satisfeito aqui… pois sabe que há sempre o ali. Coisas. E à volta toda a gente a divertir-se, as concertinas desafiavam-se, os pares rodopiavam, as castanhas ainda passavam de mão em mão… Faltava o bolo, o prometido, o aliciante, pensava eu até que pudesse ter sido desviado por um vírus qualquer, quando fui acordado e levado em mão até ao dito. Partilhei (e agradeci) o momento e o bolo com os amigos, “e era tudo muito bom” digo eu como Deus disse.
A nostalgia do fim misturou-se com o pôr-do-sol e a saudade da partida. É assim um peregrino, embora haja sempre mais caminhos.
Pronto, estraguei tudo como de costume…
Joguei em casa. O Kim, militante caminheiro como é, e com um fé capaz de remover montanhas, encostas, rampas, declives e altos, desceu à civilização para fazermos um pequeno passeio por zonas de Várzea e Alpendurada. O que é bom é o que os outros têm, por esse motivo é difícil à partida descortinar um interesse peculiar para descrever uma volta por estas bandas, pese embora a capacidade e imaginação deste autor que já foi capaz de quase fazer epopeias de pequenos passeios por terras insignificantes e cheias de caminhos e casas velhas. Mas tenho que confessar aqui, porque sou orgulhoso da minha humildade (!), que fizemos duas caminhadas memoráveis e das quais nunca tive coragem de escrever uma letra pequenina que fosse: quando fomos a Mafómedes, Baião, e Aldeia de Pena/Covas do Monte, S.Pedro do Sul. O que vi e senti nestes dois locais foi demasiado violento, a beleza que apalpei foi por demais grandiosa, as pessoas com quem falei foram tão superiores, que me senti, como sinto ainda hoje, completamente desarmado e incapaz de sequer imaginar uma frase que seja! Há coisas que não cabem em palavras, parece como quando queremos explicar Deus por aquilo que entendemos e não por aquilo que nos ensinaram. E lembrando-me do que o mestre Miguel Torga (tão injustiçado pelo nosso esquecimento...), tem escrito numa placa no alto do monte São Leonardo em Galafura, Régua, então quem sou eu para balbuciar uma reticência que seja? Atrevo-me a pôr aqui, curvando-me em grande respeito, duas passagens:
"O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza" e "Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro"
E com alguma habilidade consegui enriquecer este texto, dado a falta de imaginação ou de conhecimentos para descrever a caminhada deste dia. Sei que há muita história pelos lugares por onde passei, Crespos, Chaim, Gandra, Bouça, Geraço e... Bitetos, principalmednte este (ou estes? não são dois?). Mas, como disse anteriormente, o dos outros é que é bom e interessante, e sei mais das outras terras por onde passo do que daquela onde vivo. Por isso sou de MerdA, pronto, está dito. E confesso também que fui pela web buscar "Bitetos" na intenção de algumas dicas que demonstrassem a minha vasta cultura... Também já está dito. Embora pouco não foi pelo menos tempo perdido, porque acabei por verificar que há alguém que tem acervo e o faz publicar com histórias da importância actual e já antiga de Bitetos.
Passámos, este humilde escriva e o Kim fotógrafo pintor e caminheiro, uma manhã agradável a fugir e a fintar a chuva que dizia que vinha e não vinha, falando de política, de medos e de religiões, e sempre atentos aos espectáculos que a natureza e os pequenos recantos de Bitetos nos punham à frente dos olhos. Nem as historinhas de gentes e locais que eu ia contando feito cicerone distraíam as câmaras fotográficas, sempre apontadas às curvas do Douro ou às flores que carinhosmente enfeitam os jardins das casas por onde passávamos.
Não querendo passar sem um pequeno contributo pessoal para a história deste local, vou publicar aqui uma foto minha, já com alguns anos, dum barco em construção junto ao cais de Bitetos.
E finalisando, com a minha mania e jeito especial de estragar sempre o que faço de belo e útil, quero deixar umas perguntas: quem fez este barco? Será que ainda navega as águas do Douro? Será que, ainda existindo, terá histórias macabras para contar? Será que levou muita gente para a outra margem, seja ela qual for?
E nasce-me a ideia para um filme: "O ÚLTIMO BARCO EM BITETOS" Vou já falar com o mestre Manoel de Oliveira.
...o prometido, claro. Também é devido pagar o que devemos, por isso Portugal está tão à rasca! Assim não estão os cAminHEiRos de MerdA para cumprir uma visita a Sanguinhedo e Contença, Cinfães, como no post de 17 de setembro ficou combinado.
A meio de Cinfães entramos no primeiro caminho velho que encontramos, é este o nosso destino... Pisar as ervas que ninguém pisa, olhar as flores silvestres que ninguém olha, ouvir pássaros que os ruídos do mundo não deixam ninguém ouvir, provar as frutas originais e saborosas que as árvores oferecem mas toda a gente vai comprar ao supermercado. Move-nos a autenticidade das coisas esquecidas, do espontâneo, move-nos a beleza em bruto, move-nos o cheiro do Portugal antigo que os nossos bisavós com tanta sabedoria e sacrifício construiram numa sintonia perfeita com a natureza. Os muros dos caminhos estreitos, as ramadas, os palheiros, as videiras idosas, as pessoas que ainda carregam consigo o espírito de uma aldeia que já não existe, os cães que nos ladram e abanam o rabo a dizer que nos estão a cumprimentar, são fotografias que tiramos e gravamos no nosso disco para nos acompanharem no dia a dia dum mundo ingrato ali mesmo ao lado! Calçamos as botas todos os domingos de manhã para sermos peregrinos em direcção a um santiago de compostela que já não existe mas que vamos encontrando nestes recantos perdidos. Somos romeiros e responderemos "ninguém" a quem nos pergunte quem somos.
Regressado da Hungria onde foi participar (!...) na maratona de Budapeste (que caMiNHeiRo de MerdA não é só caminheiro) o "irmão" Leitão começou a lançar a sua Nikkon em direcção a todas as flores que encontrava e às borboletas que ainda vagueiam por aí. As paisagens vistas da parte de cima de Cinfães até ao rio Douro, e as encostas já do outro lado, tudo semeado de casario e verdura, são uma tentação mesmo para a Nikkon do Kim, retratista sempre atento a momentos de beleza que gosta de partilhar no sapo.fotos ou no olhares.com. Entre fotos e provas de figos e uvas de fino sabor que ainda restam do parto da natureza, temos conversas profundas sobre temas dos mais diversos, dos quais não percebemos nada mas sobre os quais fazemos profundas reflexões. A visão do que é Deus é o tema perferido do Kim, militante leitor de tudo o que se refere à explicação do significado da vida e sua origem e destino, sobretudo no que ao Homem diz respeito. É um tema complicado que assusta o Xapim, mais duvidoso e inseguro do que entendido nestes assuntos, e que o irmão Leitão encara mais com um realismo e certeza de que não é muito importante para ele. Visões diferentes, pontos de vista quase antagónicos, mas que nos mantêm sempre de acordo. É este o nosso destino, esfarrapados de espírito e tristes caminheiros.
Quase sem nos darmos conta, deparamo-nos com um dilema: chegamos ao local onde havia duas estradas, uma para Sanguinhedo e outra para Contença.
Discutíamos a questão sem conseguir a maioria absoluta para nenhum dos lados, e já falávamos novamente de Deus quando nos demos conta que já seguíamos em direcção a Sanguinhedo. É assim que funcionamos, numa coexistência pacífica que só pode ser obra do sincrodestino de que fala um dos livros que o Kim me emprestou para ler.
E Sanguinhedo à vista. Silêncio, solidão e calmaria foi o primeiro impacto à entra da pacata aldeia. Não víamos pessoas (para a missa com certeza), mas deliciamos a vista com os prados floridos e verdes que ladeavam a estrada estreita que a atravessava, onde algumas borboletas esvoaçavam em controlo aéreo da sua zona de responsabilidade. Não vimos as casas velhas que esparávamos e as pessoas com quem gostarímos de trocar duas palavras, mas respiramos aquele ar que a montanha sabe oferecer melhor que ninguém e que estes tristes caminheiros ali perdidos também mereciam.
O dilema que nos apoquentava deixou de o ser, e o desgosto de não poderemnos visitar as duas aldeias no mesmo dia também ficou minorado quando verificamos que à nossa direita, mais urbana e aparentemente populosa, se avistava Contença! Pareceu-nos avistar uma torre de igreja e ouvir um sino, se calhar a justificação para a notada ausência de pessoas. E concluímos, nós que somos tristes mas não palermas, que a capital de Sanguinhedo e Contença é Contença, como Ouagadougou é a capital do Burkina Faso.
À entrada de Sanguinhedo
É muito o que Portugal nos oferece, é quase demasiado o que a natureza nos põe à frente dos olhos, fica quase bêbada a nossa alma caminheira com tanta fartura! Uma coisa no entanto é inexorável e nos deixa impotentes: o tempo. É a hora de regressar e também de ir acabando este texto que, parecendo tamanho, quase tudo deixa por contar: é a alma dum cAmInHeiRo de MerdA sempre insatisfeita.
No regresso, o encontro inevitável com um dos nosso irmãos mais fiéis nestas andanças: um cão. Ladram bravos ao nosso encontro, com uma bravura que, acreditamos, é a maneira de expressarem a alegria de nos verem tal é a rapidez com que mudam a sua atitude e abanam o rabo num abraço de velhos colegas de caminhada que se encontram passado muito tempo. Entregam-se e alguns até nos acompanham pelos caminhos velhos que pisamos, cães como nós!
Adeus Sanguinhedo e Contença: havemos de voltar!
O irmão cão (o castanho, claro!)