Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Crónica de MerdA 3 (o sol é perigoso)

Há uma angústia melancólica que guardo bem ainda na minha memória e que os fim das tardes intermináveis de verão me provocavam quando era ainda jovem adolescente. Uma sensação de tristeza, de despedida, de prisão invadia-me. O vermelho ardente e alaranjado do sol a pôr-se, as sombras da noite que se anunciavam e que pareciam em movimento como braços que me cercavam, deixavam-me quase prostrado... Aquele silêncio, os movimentos quase imperceptíveis da vida a recolher, a lentidão do tempo e dos pensamentos... 

O pôr do sol assusta-me ainda hoje, assim como outro trauma de infância: olhar para o céu estrelado mais de cinco minutos seguidos! Mas isto é outra história... para outras crónicas.

Em África, o pôr do sol é violento pelas suas cores, pela sua dimensão, pelos cenários que cria em conjugação com o meio, pelos sentimentos fortes que provoca. É fácil cair-se no lugar comum quando se fala de África. Quando fiz estas fotos e as observei, mil ideias me assaltaram a cabeça, escrevi dois "poemas" jogando com as cores, o arame farpado, a segregação, o sangue... Rasguei tudo, os papeis e as ideias, e sobretudo a intenção de complicar uma coisa que pode ser tão simples.

Agora olho para estas fotos e fico calmo e sereno: não faço mais nada que não seja deixar-me levar pelo pensamento, pois assim não tenho nem sinto limites ou horizontes, não tenho que ouvir opiniões nem críticas, e não fecho dentro de palavras mais ou menos coordenadas e rimadas aquilo que é impossível caber nelas. A meditação ajuda no auto controle, hei-de conseguir olhar para um céu estrelado durante mais de cinco minutos, ai hei-de...

escrito por xapim às 01:17
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Crónica de MerdA 2 (pregos e Mandela)

 

  Não tinha noção do que era a África do Sul, mas, mesmo de noite e na viagem do aeroporto até ao hotel, depressa a ganhei ao comentar para o taxista “ah, isto é igual à Europa”, “oh, beautiful” respondeu ele rindo-se. Dois factos confirmados num momento só: que realmente a África do Sul é como a Europa, limpa, ordenada, trânsito sossegado, carros todos direitos e nada de carrões, zona verdes, relva, e que os sul-africanos são simpáticos. Tudo isto eu confirmei na prática e por informações recebidas nos dias a seguir. E nota-se que as coisas funcionam, sobretudo. Não quero dizer com isto que tudo é bom, ou óptimo, sabe-se que nunca devemos julgar a parte pelo todo, para o bem ou para o mal. Mas, para quem anda por África, é este o primeiro impacto, nunca nos devendo esquecer que isto foi “inglaterra”. Sim, e apartheid… que hoje não se vê, abençoados ventos da história e heroicidade de um Mandela, para mim personagem dos séculos XX e XXI! Não vejo hoje, não só aqui como noutras paragens, diferenças sociais pela cor da pele, mas por outros motivos talvez menos óbvios mas de igual modo marcantes. Teríamos aqui dialéctica para muitas discussões, com certeza para outros fóruns que não estes, de MerdA.

As coisas iguais em todo o lado, são como uma família unida e feliz: não têm história, não têm acontecimentos relatáveis que interessem aos media, a colunas sociais ou crónicas que se querem com interesse. Chegar a Tókio e ir a um snack comer um hambúrguer, é como fazer o mesmo em qualquer outra parte do mundo, não tem interesse. Chegar a Lisboa e comer umas sardinhas assadas em Junho, sim, é único, é específico, inesquecível e irretratável. Isto para dizer que estar num hotel nos arredores de Joanesburgo é igual a qualquer outro lado, o interesse é nenhum. Mas estar numa sala de formação com um bielorrusso, um italiano, dois portugueses, três “mauricianos” (é assim que se chamam os habitantes das ilhas Maurícias?), dois bóeres sul-africanos… sim, é de interesse, é educativo e justifica citação numa crónica mesmo de MerdA. Será esta uma imagem que nos levará a falar duma África do Sul multirracial e multicultural, apesar de estes personagens não serem todos habitantes ou naturais da mesma? Deixo isto para algum entendido, ou antes distraído, que, num ligeiro descuido, se tenha mantido na leitura destas considerações até este ponto.

 Multicultural é, vi eu: logo no segundo dia um hóspede africano e negro com uma camisola do Benfica, impecável, limpa e nova. E recente pelo que a publicidade mostrava. Concordo que alguém discorde (sim, é uma quase repetição propositada), mas pelo menos cruzamento de culturas é. Mas podem começar pelo menos a pensar, pois ao jantar no restaurante que serve o hotel, deparei-me com uma pequena maravilha no menu: “prego roll, made the traditional Portuguese (sim, está com “P” grande) way, prepared in secret Portuguese (sim, “P” grande outra vez) recipe”. Claro, aberto a experiências e orgulhoso de tudo o que é português, tive que experimentar o que era comer um prego em Joanesburgo, e apesar de não ter a ver com um qualquer prego comido numa tasca do Marco de Canaveses, (os molhos eram tipicamente ingleses), já posso dizer “comi um prego Português nesta ponta de África por onde, há centenas de anos, heróicos portugueses passaram cheios de escorbuto e coragem enfrentando adamastores e, mais do que isso, incrédulos velhos do Restelo de então, apesar de não piores do que aqueles que hoje não sentem um bocadinho de orgulho do que os seus antepassados deixaram semeado por todo o globo terráqueo.

E que tal no dia seguinte um “Portuguese chicken prepared with our secret suice, and home made chips”? Sim, melhor e mais português que o prego, assim o prego eu que não sou Frei Tomás. Por fim um café expresso em chávena grande, com um pouco de canela espalhada estrategicamente… no prato. Visualmente muito bonito. Só.

escrito por xapim às 00:21
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2013

Crónica de Merda 1 (elefantes e portas)

O elefante Salomão (do livro que leio presentemente “a viagem do elefante” do galardoado José Saramago) viajou de Lisboa, via Valladolid, até Viena de Áustria. Não se comparam as viagens de então com as de hoje, aquelas sempre com os pés na segurança do solo e estas com a segurança também, mas das aves de ferro que sulcam os ares e nos colocam em continentes diferentes à distância do espaço entre duas refeições. Eu estou neste momento no aeroporto de Luanda a fazer tempo para embarcar para Joanesburgo, mais uma viagem pelos ares que num instante me coloca em locais onde, se viajasse como o Salomão, nunca conheceria na vida. Há muito quem fale e escreva sobre o mundo dos aeroportos, as pessoas que passam, as que chegam, as que partem, as expressões, os comportamentos… Eu, como passageiro, prefiro sempre a chegada, nunca a partida nem a espera. 

De viagens pouco há a dizer ou a escrever, é assunto explorado a muitos níveis, até comerciais. Mas o que me traz aqui não são viagens, são caminhadas. O espólio mental que adquiri nestes 14 anos a percorrer caminhos velhos por esse lindo e também velho Portugal, faz com que estas viagens por África, agora frequentes, não sejam para mim “viagens” mas sim o prolongamento em espírito das velhas caminhadas feitas até agora. E quero descrever um bocado do que vejo e sinto, em “crónicas de MerdA”, claro.

Difícil? Sim, difícil… até pela falta das muletas dos meus colegas, diferentes, discordantes, teimosos, mas, talvez por isso, enriquecedores. Aqui nestas caminhadas actuo a solo, que é coisa que gosto pouco. Curto a solidão, mas gosto de sentir por perto a presença de pessoas com quem me identifico. Aqui por exemplo, está muita gente sentada, muita gente a passar, gente gorda, gente magra, miúdas helicóptero, negros, brancos, todos com cara de partida… mas não me dizem nada! É a solidão sozinha que detesto. Porque mesmo no meio deles, não sou ninguém. E eu prefiro ser ninguém, sim, mas no meio de quem me conhece.

Da África do Sul não tenho imagens mentais, não tenho um mapa interior, ideias ou imagens feitas. Unicamente apartheid e Mandela (ah, e o primeiro transplante de coração). E neste momento uma preocupação: como se vai sair o meu inglês aprendido na adolescência, e nunca utilizado na prática, numa altura em que ainda era o francês a língua dominante… Com chineses já experimentei, e deu certo porque eles falam tão mal como eu!

Gritam os altifalantes “Embarque com destino a Joanesburgo, porta 4!” E não era a 4, era a 1. Nem sei para que gritaram

escrito por xapim às 00:49
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Repato de Natal, sim, repasto!

O Conde de Ariz afinal existiu... Pois, mas foi só um! Não deixou descendentes, ficou tudo por por ali: primeiro, último e único.

Deixou pelo menos um largo com o seu nome, onde se situa também uma casa única: a Casa Santos, tasca histórica que já vai pelo menos na terceira geração. Mais histórica a partir de agora: foi finalmente a escolhida para o jantar de natal desta agremiação cAminHeiRoS de MerdA.

Obrigado Eduardo Santos pela fidalguia com que nos recebeu e por aceitar uma pequena excepção no horário habitual da sua antiga e conceituada casa. Os sabores genuínos das moelas, das orelhas, das azeitonas, da salada de bacalhau assado com cebola e alho, o gosto único e quente daquele ambiente acolhedor e cheiroso, o vinho verde tinto colorido e abençoado, fizeram com que aquela hora e meia que durou o repasto e a conversa ficassem bem gravadas nas nossas memórias. Rolaram livros e opiniões, histórias e desabafos, desenterraram-se memórias antigas de juventude, amores e namoros... que a alma também tem boca e estômago. Há um espírito peregrino que abarca caminheiros de todas a espécies e que nestes ambientes ressalta è vista. Nesta Casa Santos respira-se isto tudo. 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como este humilde escriva tem estado deslocado numa "caminhada" mais longínqua que o impede de continuar por agora a pisar com os amigos de MerdA os caminhos velhos costumeiros, foi esta a oportunidade de nos juntarmos todos, o Kim "místico", o Leitão "irmão", o Abraão "circuncidado" e este Xapim "incerto e hesitante". Momentos curtos mas saborosos que acabaram na esplanada do também histórico e idoso café Ribeiro numa conversa sobre carecas com um desconhecido (careca). Uma maneira peregrina de acabar a noite, sim, mas nós sabemos bem que nem só o chão que pisamos é que faz caminhos. Amen.

escrito por xapim às 00:00
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Sábado, 10 de Março de 2012

Bitetos continua a ser lindo

Porto de importancia económica em tempos idos, Bitetos é hoje um local que se está a tornar "cool", usando termo em voga. Turismo fluvial com grandes barcos carregados de turistas de todo o mundo que acostam no cais, praia, marina, motas de água... Mas há ainda resquícios de algumas actividades já praticamente desaparecidas: o barqueiro que atravessa o rio com pessoas e cargas. Tive hoje, no entanto, o privilégio de assistir a uma cena destas e, apanhado desprevenido, consegui no entanto apanhar a parte final e alguns gestos do barqueiro no ambiente bucólico duma manhã de sol e calmaria. O céu espalhando azul na água e o rio sentindo a saudade a cada toque do remo, a história a esvair-se nas pequenas ondas provocadas pelo vento, o barco acostado a pedir a reforma e o barqueiro a insistir na escrita da sua vida até à última letra do abecedário! A diversão via-se nos patos, mas a paz inundava tudo o resto. Eu senti-a fazendo-me parte disto tudo, parte que sou.

 

escrito por xapim às 00:03
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

O penedo que abana...

Numa visita à Capital Europeia da Cultura, que se ficou pela Serra da Penha, verficamos que a cultura do calhau também é importante. Seja pela religiosidade, pelo risco, pelo mistério, pelo misticismo, pela lenda. E nós provamos que o "penedo que abana" abana mesmo e não é lenda!

escrito por xapim às 13:44
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Domingo, 29 de Janeiro de 2012

O berço, capital europeia da cultura

  A cultura é  “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade” (Edward B. Tylor).

Foi à procura disto que fomos até Guimarães, capital europeia da dita. Aliás, é à procura disto que andamos há 13 anos pelos caminhos velhos deste país, à procura da cultura própria deste povo tão desprezada e esquecida pelas actuais gerações normalizadas. A riqueza dum povo é o que lhe é peculiar e específico, é a sua história, a sua diferença. O hambúrguer é igual em Lisboa e em Tókio (e não presta...), o caldo verde é único no mundo e é português (e que bom...). Quem visita Portugal o que procurará, um snack bar ou uma tasca? Se quiser enriquecer a sua cultura, procurará uma tasca e uma sardinha assada, ou continuará burro como antes.

E com o bornal cheio de cultura, uns rissóis, umas tangerinas portuguesas, duas garrafinhas de vinho verde branco da quinta de Crespos, partimos à conquista de Guimarães, nem que necessário fosse bater na mãe! Fugimos das auto estradas normalizadoras e fomos espalhando a vista pelos campos onde vimos carros de bois a ranger por caminhos estreitos, chaminés a fumegar ternura em fins de tarde, e ouvimos cantaréus ao desafio em vindimas de vida e trabalho. Sim, não vimos nem ouvimos, mas imaginamos.

Nos nossos planos levavamos uma caminhada pelo alto da Penha durante a manhã, um almoço campestre debaixo duma árvore frondosa, e depois sim, um passeio pela urbe que foi berço dum país.

Mal começamos a caminhar, ficamos encantados e pasmados com a irresponsabilidade de alguém que se dispôs a brincar com rochas enormes atirando-as à sorte pelas encostas do monte e, não contente ainda, foi colocar algumas em posições estranhas e perigosas, mal seguras, à espera dum pequeno toque para desmoronarem ou para abanarem como se de um pequeno berço se tratasse. (será daqui o berço da nação?!) Obra de Deus ou do diabo, ou de homens loucos, não faltam passagens estreitas com pedregulhos mal seguros por cima, grutas, capelas escavadas na rocha, fontes, escadinhas, tudo com nome de santos. A começar pela capela de S. Cristóvão que dá abrigo a outros santos protectores de quem conduz carros, barcos ou aviões... Nossa Senhora do Ar que vela para que os aviões não caiam, e Nossa Senhora do Mar para que os barcos não afundem. E nós, os caminheiros? Não voamos nem afundamos, mas podemos tropeçar, não é? Pois... ficamos a pensar, a pensar e nasceu-nos uma ideia: porque não uma imagem do S. Cricalho, padroeiro específico dos CAmINhEIrOs de MerdA, também nesta capela? Será demais? Pelo menos uma gruta, uma fonte, um penedo, não?  Há o penedo do susto, há o desfiladeiro, há o penedo do barco, o penedo da mitra, porque não qualquer coisa S.Cricalho? Vamos qualquer dia fazer justiça.


 

Percorremos todos os cantinhos, subimos e descemos todas as escadinhas, passamos os desfiladeiros, entramos nas passagens estreitas (menos o "irmão" Leitão que não cabia), corremos perigos vários por baixo de pedras mal seguras, subimos e descemos todos os sonhos à procura de gigantes ou explicações para este cenário. Cada caminho levava a um sítio diferente, ou talvez o mesmo, que os penedos tinham formas e aspectos diferentes conforme o ponto de vista. Mas não deixavam de ser penedos nem deixavam de ser mistérios para nós, que para outros não, pois lá punham santos e milagres, capelas e fontes sagradas. Eu pessoalmente via uma paisagem celta, um bosque com árvores cheias de musgo, rochas enormes e recantos misteriosos onde os druidas se passeavam e escondiam observando-nos com ar estranho. Senti-me extraterrestre e órfão das explicações cósmicas do Kim, que desta vez não nos acompanhou. O alto da Penha deu-nos fome, e o frango com molho de limão que nos esperava no Pingo Doce espantou-nos na descida e matou-nos os problemas místicos.

Mesmo junto ao castelo, assentamos arraiais e tuperwares, bolinhos de bacalhau e frango saboroso e, observando-o em contra luz recortando o céu azul em forma de ameias, atacamos com fúria o vinho de Crespos... 

Começamos a tarde com uma visita ao castelo que achamos bonito diga-se, com umas linhas simples mas enquadradas e harmónicas, nada a ver com esses prédios modernos quadrados como quem os desenhou. O D. Afonso Henriques bateria em alguém como bateu na mãe ao ver a arquitectura actual... Sem cobertura no interior, a imaginação fazia o resto: as donzelas passeando-se nos seus vestidos de veludo compridos, os pajens perseguindo-as com piropos medievais, os guerreiros treinando entre si lutas com infiéis, e, lá em cima na sala, o primeiro rei de Portugal discutia em altos berros com a mãe. Uma donzela mais moderna e com um vestido muito mais curto, acordou-nos desta imaginação... e começamos a ver então no palácio dos duques uma fábrica de confecções, com chaminés e tudo, as quezílias do rei com a mãe simples questões de heranças e partilhas e, blasfémia das blasfémias, descortinamos na famosa estátua do D.Afonso uma pose pouca consentânea com a imagem de alguém que se dizia guerreiro e conquistador: afinal fomos à capital europeia da cultura para descobrir o primeiro Gay de Portugal!

Ficamos pouco sérios a partir dali, e começamos a falar alto a nossa loucura na tentativa de a partilharmos e trazermos para o nosso lado alguns das centenas de visitantes que connosco se cruzavam, mas, perante a sua indiferença, começamos a desconfiar mas é do vinho branco de Crespos. Uma senhora que se encontrava junto a estátua, ouvindo a nossa teoria benzeu-se e desceu os degraus dois a dois. Nós olhamos para a fábrica de confecções e encolhemos os ombros... 

Passando pelo centro mais concorrido da cidade, vimos muita gente passeando pelas ruas, vimos monumentos e um casal de jovens espanhóis a cantar uma cantiga de um tal "pajarito" com uma guitarra e um violino... muito pouco para uma cultura que se quer também de rua, de partilha descontraída com todos, exactamente o que quisemos fazer junto à estátua.

Deixamos a cultura e a cidade, deixamos o berço e o rei a discutir com a mãe... e uma decisão tomada: este será o penedo do nosso padroeiro S.Cricalho, que não é menos que os outros!

 

escrito por xapim às 23:21
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Domingo, 22 de Janeiro de 2012

O Douro sente-se...

Para caminhar no inverno, em manhãs frias e húmidas, o percurso que, começando na Beira Rio Penha Longa, vai até Porto Antigo e volta ao ponto de partida, é dos mais bonitos e emblemáticos, não tanto pela beleza e originalidade em si, mas pelo peso que tem. Um peso que lhe é transmitido pela dimensão e pela voz grossa do rio, pela sua presença maciça cheia de água em movimento lento. Faz lembrar aquele avô antigo e enorme que guardamos nas nossas recordações de infância: mesmo não olhando para ele, sentimo-lo! E como as histórias que sabíamos que o avô carregava consigo, também as sentimos no rio. Desde a fronteira (o que se passou lá para Castela não nos interessa nada, nem ventos nem casamentos...), quantos livros o Douro escreveria para contar as aventuras, os pássaros, os barcos, as cheias, os desastres, os rabelos, as pipas, as relações de amor e ódio com homens bravos que o enfrentavam! Quantas desgraças e actos heróicos estas águas carregam no seu movimento grosso e compacto em direcção ao mar! Acredito que, na sua inconsciência consciente, o Douro não leve consigo as histórias até as largar no mar para que se diluam e se esqueçam na imensidão... Não, o Douro guarda, o Douro diz nos seus redemoinhos que não esquece, que quer estar sempre connosco, que quer partilhar tudo o que partilhamos com ele. Sinto que o Douro sofre um sofrimento doce, é qualquer coisa de imperceptível, parece aquele sabor que fica na boca quando se bebe um "porto" de verdade, um "porto" que viajou de rabelo no seu leito! Uma manhã enevoada, sombras cinzentas de vários tons misturadas nas árvores e nas encostas que o bordejam, aquele fumo de cigarro parado que enala das águas, um pato solitário que voa rasante, tudo isto faz um quadro festivo para os sentidos e para a alma que torna este percurso inesquecível de cada vez que o fazemos.

 Mais uma vez senti tudo o que foi escrito, apesar das peripécias causadas pelo atraso crónico do Kim (adormecido decerto no meio de questões informáticas) que levou o Tiago Teixeira a dizer-me ao ouvido "vamos deitá-lo ao rio se ele ainda vier?" Vamos, claro! E arranjamos assim uma brincadeira diferente, em vez de andar a atirar laranjas ao mais distraído que vem atrás. O "irmão" Leitão levou mesmo assim com uma na cabeça (não sei quem atirou), o que lhe valeu um aviso "cuidado irmão, não caminhe debaixo das árvores!" "Pois é... obrigado pelo aviso" e olhando para cima, para um grande sobreiro plantado na encosta e debruçado sobre o caminho, "têm razão, o sobreiro até já largou as laranjas todas...". Tive pena do rio, não lhe chegam as histórias que carrega na consciência... ainda tem que levar com estas anedotas de MerdA! Mas eu sei, no entanto, que ele gosta de nós, gosta porque nós também gostamos dele.

Já no regresso, apareceu-nos o Kim a fazer o mesmo caminho, o peso na consciência foi mais forte e veio pedir desculpa! Temi no entanto pela sua vida e mantive-me atento ao Tiago Teixeira, não fosse ele querer cumprir a promessa e atirá-lo mesmo ao rio. As desculpas foram aceites e sensibilizaram-nos, mas ficou o aviso de que nunca mais esperaremos pelos atrasados: cinco minutos de tolerância e mais nada. (acho que o "irmão" Leitão vai caminhar sozinho a partir de hoje).

Uma visita no próximo domingo a Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, foi promessa feita junto as águas do Douro. Quando fazemos uma "promessia" ao avô velhinho, não podems falhar. 

 

  

as nossas almas rupestres gravadas junto ao rio           onde passa o combóio, já nós passamos...                        a "casa da roupeira"

escrito por xapim às 22:06
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Recantos de Vila Boa do Bispo (com filme)

Após algum tempo com as atenções desviadas para um projecto em curso, uma rota homologada (velho sonho) entre o mosteiro de Vila Boa do Bispo e o convento de Alpendurada, provisória ou definitivamente chamada de "Dois Rios Dois Mosteiros", as saudades da libertinagem que é uma caminhada à solta por velhos campos e caminhos com os companheiros de há tanto tempo, das conversas e asneiras com que constantemente nos agredimos, das fotos a tudo e a nada, do convívio com os amigos cães que nos falam ladrando e abanando o rabo, dos silêncios que não nos magoam... já eram tantas, tantas que, ao contrário do costume, num segundo marcamos hora e local para nos encontrarmos. Talvez o nosso recorde. Já não era sem tempo, já lá vão 13 anos a desentender-nos!

 

Logo pela manhã o Tiago Teixeira, nosso benjamim que anda agora a curtir umas caminhadas connosco, começou a sua empreitada de SMS a lembrar-me e a relembrar-me a hora a que eu tinha que o ir buscar. " Responde ao Tiago", insiste para eu não ter qualquer hipótese de me distrair e o deixar em terra. E eu não esqueço, nunca esquecerei, um colega assim, bem disposto e brincalhão, que ameniza os nossos passos e as nossas conversas, inventa e alinha nas nossas brincadeiras desde o esconde esconde até atirar uma laranja ao mais distraído que venha a trás.

Foi assim que nos juntámos às 9h00 da manhã junto à Fundação Santo António, à espera dos caminhantes Pé Ligeiro que tinham, vimos no facebook (coisa moderna que contrasta com os caminhos velhos que percorremos), combinado entre eles iniciar ali uma caminhada por terras de Vila Boa do Bispo. Da vontade de fazer uma surpresa aos colegas caminhantes (agradável ou não eles o diriam), passamos a um estado de desilusão. São tantos e não aparece nenhum? Oh Tiago o que é que achas, enganaram-nos? O Tiago pensou, mas foi rápido na resposta. "Esperem que eu já lhes vou chamar à atenção. Vou falar mesmo com o doutor quando estiver com ele."

Arrancamos sem destino, sem qualquer conversa prévia, há um magnetismo que direcciona os nossos pés e sintoniza a nossa alma. O Kim sabe, e o "irmão" Leitão não acredita, que cada um de nós é parte integrante do universo a que pertence, somos células constantemente recicladas, pertencemos à terra que pisamos e é dos seus frutos que nos alimentamos, terra por sua vez num processo de reciclagem contínua. É o sincrodestino que nos guia, nos leva pelos caminhos que devemos ir, caminheiros de ninguém, companheiros do mundo, parceiros da diferença, fogosos amantes da natureza!

Foi um passeio leve pela Lavandeira, Cavalhõezinhos, Outeiro, Cimo de Vila, Tenrais, Ausenda, Maninho, Fafiães, Ledouro... Leve porque curto, leve também porque não deu azo a grandes conversas metafísicas nem políticas, algo cansativo para o escrivão-mor que foi fazendo um registo em vídeo de várias passagens e ambientes.

Sem mais delongas, sem grandes histórias, que a dos cAmiNhEirOs de MerdA é feita de pequenas, fica aqui o apontamento em vídeo para as nossas memórias, que para as dos outros com certeza não interessa. A dedicatória vai inteirinha para o nosso recente e jovem colega e competente caminheiro Tiago Teixeira.

Tiago Teixeira (foto xapim)      O fime (realiz. xapim)

escrito por xapim às 22:06
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Aventura alucinante num dia de chuva

"EM BUSCA DO TORTULHO ALUCINÓGENO" é o primeiro trabalho cinematográfico realizado pelos cAmiNhEirOs de MerdA. Ideia antiga, sempre com o objectivo de partilhar as nossas viagens pelos caminhos velhos da saudade, foi concretizada agora. Sem meios, sem subsídios do estado (isto é cultura meus amigos), este trabalho é prova de engenho, de arreganho e de outras coisas terminadas em anho como por exemplo cabrito (que poderá ser tema duma próxima aventura), e prova que é possível em plena crise ser criativo e vencer! Descansa o escriva, descansam os leitores:
Usufruam, desfrutem, apreciem!
escrito por xapim às 20:12
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