Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Oportunamente...e mente mesmo! Ai a fuga das galinhas...

É difícil, quando caminhar não é uma profissão. É facto que nascemos da natureza e fomos criados para nela viver, assim faziam os nossos antanhos que se deslocavam pelo mundo sempre à procura do melhor síto e do melhor alimento. Nós fomos estragando este paraíso e agora, só nos tempos livres que conseguimos ir roubando à azáfama é que o fazemos. E para descrever esses momentos de liberdade e prazer, pior ainda. Assim, isto já vai longo, o tempo passa e ainda não chegamos ao almoço... Também pode não ser só isso, o receio e a dificuldade que este escrivão prevê para ser excato no que nele se passou também pesa, e muito...

Acabada a conversa (divina como só se consegue com pastores e agricultores limpos de preconceitos, de snobismos, de tabus, de preconceitos...) com o pastor, recebidos pelo cão amigo, verificamos que a aldeia ainda estava no sossego da lareira, se calhar os pastores de serviço a pôr o pão, a cebola e o salpicão na saca de pano que levariam ao ombro para a serra, se calhar as cabras e os cabritos já a mover as maxilas e a pressentir o sabor fresco das ervas tenras que seriam seu lauto banquete durante o dia.

O cão de ladrar amigo trouxe outros cães amigáveis também, e nós, educados perante o convite, entramos então pelo meio das casas na prespectiva de algum movimento de pessoas, o que de facto não demorou. O Sr. António, pastor de serviço, surgiu no cimo das escadas agasalhado no seu casaco de couro castanho, e desceu calmamente para o quinteiro apoiado no seu cajado, companheiro de muitas subidas à serra. Abriu as portas que tinha a abrir, e as cabras amestradas seguiram escrupulosamente o caminho que (de certeza) ha séculos os seus antepassados também seguiram, juntando-se na praça às que já lá estariam e esperando lá pelas que ainda não haviam chegado. Passamos pela casa da S.ra Maria, que, como cavalheiros, ajudamos a soltar os animais e a guiá-los até ao ajuntamento.

 

o ajuntamento

A Sra Maria e as suas cabras no ajuntamento (o escrivão não conta) (foto Leitão)

 

Todos juntos, as cabras, os cães amigos, os pastores, os caminheiros, o frio agreste não convidado mas presente a fustigar as orelhas, alguma conversa de circunstância acerca de lobos, e "vamos meus amigos que se faz tarde". Mais tarde para nós, meros romeiros de passagem, que ainda teríamos da fazer uns quilómetros para merecermos o repasto, menos para as cabras, que o tinham já li à mão de semear e com a vantagem de terem quatro patas.

Partimos, com a saudade costumeira de quem parte com medo de não voltar, e andamos em frente com a vontade costumeira de quem procura sempre um caminho de regresso, no nosso caso, a Tasquinha do Fumo.

Onde chegamos, regelados por fora e a arder por dentro, o galinheiro vazio de galinhas mas cheio ainda de desconfiança. Subimos, passamos pela porta da cozinha, com um olhar rápido olhamos a lareira carregada de brasas e a mandar mensagens de fumo para o ar, e entramos na sala onde nos esperava a mesa já pronta de adereços mas ainda vazia daquilo que nos trazia cá: encher a alma com os sabores tipicos desta região.

 

Os 4 de MerdA, já comidos, alcoolizados, diplomas e cartões distribuídos (foto Nikkon do Kim)

 

Bem, escolhemos a meias vinho maduro tinto e verde tinto. Secos pelo ar gelado da montanha, o apetite aguçado pelo esforço físico, os aperitivos que não vieram logo, logo bêbados pelo vinho que bebemos... sim, bêbados, não bêbados atenção! A seguir a cebola em vinagre e com um tempero secreto, a moura assada na brasa, o presunto em fatias, a broa e o pão de padronelo, as costelas, as batats a murro... Oh!, foi preciso andar dez anos por caminhos e vales, Montanhas e Encostas, Rampas e Declives, Altos e baixos, acossados por cães e moléstias de vária ordem, aturar as discussões filosóficas sobre Deus do "kim" Freitas, as piadas e as florzinhas do  "Irmão" Leitão, as queixas do Filinto "Tarzan" nas subidas, nada do Xapim, para saborear depois deste repasto de deuses, ainda um café delicioso feito ao lume em púcaro de barro e uma palete de licores originalíssima, servidos numa bandeja em dez frascos sem rótulo, mas cuja origem foi fácil de adivinhar em todos, sem discussão. Por isto tudo, logo que passamos à fase das cerimónias comemorativas, começamos por entregar o diploma à gerência da casa, mais que merecidopela merdança e pela cagança com que nos serviram. Bem hajam.

 

Entrega do diploma à Ex.a Gerencia (foto Kim)

 

Completamente extasiados, não só pelo serviço da Tasquinha mas também pela nossa categoria que nos fez merecer tudo isto, passamos ao discurso e entrega  do cartão de caminheiro ao Filinto "Tarzan". Momento carregado de emoção, as lágrimas percorreram disfarçadamente os nossos olhos, o Filinto escondeu a cara, rezou ao pai natal, dormiu, ficou feliz e não... até esqueceu o cartão quando fomos embora! Mas ficou a partir desse dia com a responsabilidade de MerdA acrescida: contra tudo e todos, ventos e tempestades, preconceitos e maleitas, caminhar, caminhar, até que a voz lhe doa!

Foi deixada a nossa cagada no livro de visitas da Tasquinha, fez-se o discurso, as despedidas, as promessas, carregamos a saudade, entramos nos carros e... ala que se faz tarde. Tarde para uns, cedo para quem chegou a casa às 6 da tarde, mas só "chegou" às 10 da noite. Cagança manda, pois claro.

 

MerdA

 

Filinto recebe o diploma                                                  Recebe um abraço                                                 ... e chora!    (foto Kim)

escrito por xapim às 15:47
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