Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Funge e carne seca c/previte

Angola tem sabores deliciosos. E saberes também. Compõem uma frase temperada com palavras com a mesma facilidade com que fazem um prato de comida. Era um trabalho engraçado, para alguém com tempo, fazer uma recolha da linguagem popular, seria um documento nunca fechado e muito importante para a históriia e cultura de Angola. Os vindouros agradeceriam. Frases como (numa loja de fotografia) "faz-se revelação, imprimissão e encadernação", (numa loja de peças auto) "aqui balata-se" (=forram-se discos de embraiagem e maxilas de travão), e um infinidade de outras situações, são de uma beleza incomensurável. A riqueza de qualquer língua, mesmo das mais evoluídas, vem dos acrescentos que o povo lhe vai dando, compondo palavras, aumentando-as, trocando-lhe ou modificando o significado, facilitando-as... E quantas palavras "africanas" já entraram no português correcto!

Foi à procura de sabores angolanos que parei na estrada que vai do bairro novo da Panguila para Luanda, de onde dista uns 18 kms, e entrei num restaurante abrigado com muitas árvores, vedado, com bom aspecto. Sentados, não ia sozinho, fomos atendidos por um senhor de bata branca (com aspecto de dono) que, pelos gestos e maneira de falar, fazia notar claramente que era traquejado nestas andanças, talvez num restaurante ou hotel. Quando vi na parede um quadro iluminado com luzes de cor e a piscar com os "pratos do dia" escritos a giz, esqueci o menu que entretanto nos tinha sido distribuído. Escolhi, claro, funge com carne grelhada. Mas verifiquei outro prato que me chamou a atenção, pois não conhecia: "funge e carne seca c/previte". Curioso por sabores e saberes, perguntei à colega do repasto, angolana de gema, o que era aquilo "c/previte"... Gostaria de provar, pois claro! A angolana de gema também não sabia... Ora bem, há-que perguntar ao senhor do restaurante que, muito admirado, questionou "então a menina é angolana e não sabe o que é?!"

Não sabia mesmo, e então a explicação veio clara e irónica: "sabe o que são abóboras? sabe o que são as sementes? depois de moídas, fazem-se umas bolas, temperadas...". Pois... e a angolana a ouvir sem pestanejar, não sem que, muito rápida a mostrar-nos que não era tão ignorante como isso, logo que o senhor do restaurante se afastou vaidoso da sua explicação, de imediato nos informasse que afinal aquilo eram "mutetas" (almondegas de pevides de abóbora, vi eu depois), e faziam muito bem aos diabetes! Verdade reposta, orgulho de angolana refeito, pois claro.


E eu aprendi mais um sabor de Angola, as mutetas eram boas, embora salgadas por causa da carne seca.

Mas fiquei com uma grande dúvida, que não quis esclarecer junto do senhor do restaurante, impecavelmente simpático, bem posto, bem apalavrado, bem angolano. Fiquei com um novo sabor, o das mutetas, mas com menos um saber: será que o "c/previte" seria o mesmo que "c/pevide"?

No fim-de-semana seguinte havia ali uma festa com a cantora Flor, o preço não era caro, e eu gostaria de voltar. Se não para tirar a dúvida, pelo menos para ver dançar a kizomba. E talvez umas mutetas e umas cucas para distrair. Mas a obrigação recambiou-me para Portugal no dia 3 de Maio, com esta dúvida terrível...

escrito por xapim às 19:20
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