Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Velhas memórias de uma velha caminhada

Acaso? Se calhar não. Digo mais uma sucessão de coisas, de somas, de gostos que, no seu conjunto, nos moldam a alma e o ser.

Nos idos de 1974, estava algures numa pequena povoação no norte de Angola chamada Terreiro, zona de fazendas de café e de muita solidão... O calor, a humidade, os domingos de tarde, as intermitentes tempestades, tornavam o clima interior de tal modo pesado que eu o tentava matar com uns infindáveis jogos de poker de dados,  que só acabavam no fim da garrafa de whisky estreada. E quando o jogo não durava tanto, servia o resto do whisky para regar a almofada onde reclinava a cabeça durante a noite, numa tentativa de ter um sono mais suave ou uns pesadelos mais leves.

O meu gosto pela música negra, consequência de uma outra encarnação, leva-me a fixações mórbidas como esta de ouvir quase todos os dias esta velhinha composição do Ben E. King "stand by me". Um acaso (?) guiou-me até uma versão fantástica desta música, interpretada por diversos músicos em diversos continentes e misturada num resultado final formidável pelo projecto "play for change", que demonstra e me deixa confiante num futura aldeia global sem bombas, sem economia, e só com música.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os músicos cegos que aparecem neste vídeo levaram-me, por acaso(?), às idas memórias de 1974 que, apesar do whisky multi-fins, se mantêm gravadas e frescas algures num recanto do meu cérebro, recanto que se calhar se chama coraçao, não sei.

Numa tarde ociosa, após várias actividades com o único fim de dar alguma sensação de liberdade aos sentimentos húmidos e tropicais que me atormentavam, um vulto chamou-me a atenção junto à rede que vedava e protegia o espaço que era do quartel, naquela longínqua povoação do Quanza Norte. Aproximei-me e vi um homem sentado no chão, da parte de fora, pequeno, idoso, magro e... cego. Senti profundamente aquele arame farpado, mais o que impedia o homem de me ver e ver o mundo que o rodeava e era o dele, do que o que nos separava fisicamente. O arame que impedia que nos tocássemos era fácil de derrubar, o que o impedia de ver no meu rosto olhos que choravam para dentro, o que o impedia de ter a solidariedade que um ser humano merece ter, o que o impedia de não ter fome, o que o impedia de ter dignidade, esse era impossível... Numa linguagem que não entendi, kimbundo se calhar, dirigiu-me umas palavras num tom tão triste como a lentidão dos movimentos com que fez aparecer nas suas mãos um "kissange" donde tirou uns sons melancólicos como que afinando o instrumento e dando indicações à orquestra que com ele iria actuar... (será que a sua pobreza lhe permitiria ao menos um sonho destes?)

Logo de seguida, obedecendo certinho e dentro do tempo a um maestro qualquer, começou desenfreadamente a bater os dedos nos arames do "kissange". Os sons saíam em ondas perfeitas, percorrendo infinitamente a pauta de cima a baixo e de baixo acima, num ritmo que desenhava os contornos de África numa perfeição absoluta. Embalado nestas cadências, quase acordei dum sonho lindo quando a sua voz irrompeu no meio daquela parafrenália, mais choro que canção, mais lamento que música, mais fome que melodia, mais protesto que actuação, mais raiva que pedido de esmola! Naquele calor, naquela humidade que fazem suar por fora e por dentro, cada compasso de ritmo, de som metálico e de voz eram punhos que eu sentia a bater aqui dentro! A canção era infindável, parecia prolongar-se na dúvida de que o ouvinte estivesse atento ou a perceber o que aquele homem cego queria transmitir. Sofri e deliciei-me ao mesmo tempo. Senti raiva por tantas coisas ao mesmo tempo, fosse tão fácil resolver os problemas àquele ser humano como eu sentia ser fácil arrancar com as mãos aquele arame farpado que nos separava...

 Não sei o que lhe dei, fosso o que fosse fiquei sempre a ganhar. Ajudou-me sobretudo a relativizar as coisas e os valores da vida. Como estar ao lado de alguém é mais imnportante que tudo.

Acho que nessa noite não houve jogo de poker, a garrafa do whisky foi toda direitinha para a almofada. 

             (fotos retiradas da net)

KISSANGE

Em Angola, este instrumento tradicional atinge o nível de uma verdadeira ternura, sendo para o camponês, um instrumento muito especial: é um amigo, um confidente, um companheiro, a quem ele confia as suas emoções, os seus sentimentos, as suas esperanças, os seus desejos, as suas mágoas.
É um instrumento de uso individual, que o africano toca quando sente tristeza ou solidão, ou simplesmente para passar o tempo.

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escrito por xapim às 19:58
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2 comentários:
De Leonor a 21 de Julho de 2011 às 17:17
O video é sem sombra de duvida fantastico...Já conhecia mas é sempre enriquecedor poder assistir e escutar tão serenas palavras...Stand by me...Olhar para o lado ou até mesmo "não olhar" para lado nenhum e saber e sentir alguem ao nosso lado,é o mais importante de tudo!!!


De xapim a 27 de Julho de 2011 às 10:40
Não importa quem tu és, não importa onde vais na tua vida, não importa quando dinheiro tens... se não tens alguém ao teu lado.


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