Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

A pomba cagou-me...! Merda!

O Porto é uma cidade com gente. Gosto sobretudo de dois locais: Mouzinho da Silveira e Santa Catarina. A primeira, pela arquitectura  e lojas de negócios antigos e fora de moda. Sonho um dia fazer um apanhado fotográfico para memória futura daquelas belezas que se não podem esquecer nesta era tecnológica e de negócios virtuais. A segunda, pela montra e passerelle de gente que está e que passa num movimento constante, pessoas para cá, pessoas para lá, todas aparentemente com algum objectivo que se calhar nem saberão qual é. Eu, momentaneamente, farei a mesma figura quando em trânsito para a esplanada da pastelaria Império onde me sinto melhor como observador do espectáculo do que como actor, após tomar um café curto.

Foi nesta última que, numa tarde de verão e depois do cimbalino e do cigarro, concentrado no meu trabalho de observação de gente a passar imaginando uma história para cada um, apanhei o primeiro susto quando uma mulher magra, corada, despenteada e suja, me tocou no ombro e, gritando (literalmente), atirou de supetão "ó senhor, pague-me uma sopiiinha!". É uma personagem habitual neste cenário, mas consegue sempre surpreender porque aparece do nada, não faz ruído no seu andar desajeitado e manco, e nunca vem de frente para as suas "vítimas". 

                               O "susto" (retratista xapim)

Um segundo susto, mais pequeno, veio, mal eu me tinha recomposto, da voz tonitruante da D. Fernanda "olh'ó pijama 5 euros, dois" em pronúncia tripeira legítima que se vai perdendo lamentavelmente na cidade. Esta senhora é personagem já famosa, dona da rua e da urbe, controlando tudo e todos, desde carteiristas (que conhece de ginjeira), a "gunas" (jovens ladrões de boné ao contrário que roubam telemóveis e dinheiro simpaticamente a outros jovens desprevenidos), a amigos, conhecidos, clientes habituais dela ou das lojas, a quem se dirige "olá Miguel como estás" de seguida ao pregão habitual sem qualquer intervalo! Figura incontornável da rua de Santa Catarina.

 O terceiro susto, este sim o que dá titulo ao "post", é que foi a sério. Os outros serviram como enchimento para este texto, embora fossem assuntos que poderiam ser úteis para qualquer outra altura em que eu quisesse escrever sobre a bela e invicta urbe do Porto.

Lia o Público, as costumeiras notícias da política europeia, a crise, as convergências e códigos laborais, as secretas e os desvios, a crise, mineiros chilenos processam estado (abraço amigos...), budas destruídos e incumprimentos, os angolanos no BPN, a crise... O habitual, que não convém ler todos os dias para não corrermos riscos duma depressão, mas que também não convém passar sempre ao lado para não sermos meros bonecos inconscientes no palco do mundo. Num suplemento chamado Empresas & Empresários falava de diversas empresas portuguesas de sucesso nos mais diversos ramos, desde a carpintaria mecânica à informática e consultoria, do marketing à caixilharia em pvc, das terapias de spa ao mobiliário e calçado. E quando digo sucesso não me refiro ao sucesso caseiro mas ao mundial, com clientes no mundo inteiro e exportando quase a totalidade das suas produções, sendo empresas pouco conhecidas do público em geral. Não estamos a falar da Compal ou Mateus Rosé, de vinho do Porto ou jogadores de futebol... E isto deixou-me confuso, muito confuso! Sou inundado todos os dias pela palavra crise, os governantes não se entendem, discutem e tomam medidas, chegam, prometem, discursam e saem incólumes! Entretanto os empresários anónimos investem, os operários trabalham e conseguem ter sucesso, fazendo mais pelo país que todos os políticos incompetentes e palavrosos que o "governam". E daqui vem a minha confusão: será que precisamos de governos, não será a nossa classe dirigente que não só não deixa o pais evoluir como o destrói?! Fiquei-me pelo apreço à vontade indómita, empreendedora, capaz e criativa deste povo velho e sabedor cuja alma mora neste belo recanto à beira Atlântico há tantos séculos. Fiz-me sentir bem com este pensamento, usufruí este alívio e continuei mergulhado no jornal mas sem o ler...

Mas não demorou muito este consolo. Um pequeno ruído de qualquer coisa a bater em papel, mas que pareceu um estrondo como quando estamos a adormecer, acordou-me: olho para o jornal e vejo uma cagadela de pomba esbranquiçada precisamente em cima da página duma dessas empresas de sucesso... Olha para a minha camisa azul e vejo-a manchada de salpicos, sinto o cheiro da dita e, olhando para o lado de onde vinha, vejo o ombro também afectado! Insultei a pomba, a crise, os nossos governos, os nossos palavrosos incompetentes e pensei se o país que amo estará condenado a esta merda.

Ou será que a pomba, caminheira voadora, me reconheceu e quis cumprimentar? Podia era brincar com outra coisa que não o nome. 

escrito por xapim às 18:14
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