Domingo, 22 de Janeiro de 2012

O Douro sente-se...

Para caminhar no inverno, em manhãs frias e húmidas, o percurso que, começando na Beira Rio Penha Longa, vai até Porto Antigo e volta ao ponto de partida, é dos mais bonitos e emblemáticos, não tanto pela beleza e originalidade em si, mas pelo peso que tem. Um peso que lhe é transmitido pela dimensão e pela voz grossa do rio, pela sua presença maciça cheia de água em movimento lento. Faz lembrar aquele avô antigo e enorme que guardamos nas nossas recordações de infância: mesmo não olhando para ele, sentimo-lo! E como as histórias que sabíamos que o avô carregava consigo, também as sentimos no rio. Desde a fronteira (o que se passou lá para Castela não nos interessa nada, nem ventos nem casamentos...), quantos livros o Douro escreveria para contar as aventuras, os pássaros, os barcos, as cheias, os desastres, os rabelos, as pipas, as relações de amor e ódio com homens bravos que o enfrentavam! Quantas desgraças e actos heróicos estas águas carregam no seu movimento grosso e compacto em direcção ao mar! Acredito que, na sua inconsciência consciente, o Douro não leve consigo as histórias até as largar no mar para que se diluam e se esqueçam na imensidão... Não, o Douro guarda, o Douro diz nos seus redemoinhos que não esquece, que quer estar sempre connosco, que quer partilhar tudo o que partilhamos com ele. Sinto que o Douro sofre um sofrimento doce, é qualquer coisa de imperceptível, parece aquele sabor que fica na boca quando se bebe um "porto" de verdade, um "porto" que viajou de rabelo no seu leito! Uma manhã enevoada, sombras cinzentas de vários tons misturadas nas árvores e nas encostas que o bordejam, aquele fumo de cigarro parado que enala das águas, um pato solitário que voa rasante, tudo isto faz um quadro festivo para os sentidos e para a alma que torna este percurso inesquecível de cada vez que o fazemos.

 Mais uma vez senti tudo o que foi escrito, apesar das peripécias causadas pelo atraso crónico do Kim (adormecido decerto no meio de questões informáticas) que levou o Tiago Teixeira a dizer-me ao ouvido "vamos deitá-lo ao rio se ele ainda vier?" Vamos, claro! E arranjamos assim uma brincadeira diferente, em vez de andar a atirar laranjas ao mais distraído que vem atrás. O "irmão" Leitão levou mesmo assim com uma na cabeça (não sei quem atirou), o que lhe valeu um aviso "cuidado irmão, não caminhe debaixo das árvores!" "Pois é... obrigado pelo aviso" e olhando para cima, para um grande sobreiro plantado na encosta e debruçado sobre o caminho, "têm razão, o sobreiro até já largou as laranjas todas...". Tive pena do rio, não lhe chegam as histórias que carrega na consciência... ainda tem que levar com estas anedotas de MerdA! Mas eu sei, no entanto, que ele gosta de nós, gosta porque nós também gostamos dele.

Já no regresso, apareceu-nos o Kim a fazer o mesmo caminho, o peso na consciência foi mais forte e veio pedir desculpa! Temi no entanto pela sua vida e mantive-me atento ao Tiago Teixeira, não fosse ele querer cumprir a promessa e atirá-lo mesmo ao rio. As desculpas foram aceites e sensibilizaram-nos, mas ficou o aviso de que nunca mais esperaremos pelos atrasados: cinco minutos de tolerância e mais nada. (acho que o "irmão" Leitão vai caminhar sozinho a partir de hoje).

Uma visita no próximo domingo a Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, foi promessa feita junto as águas do Douro. Quando fazemos uma "promessia" ao avô velhinho, não podems falhar. 

 

  

as nossas almas rupestres gravadas junto ao rio           onde passa o combóio, já nós passamos...                        a "casa da roupeira"

escrito por xapim às 22:06
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