Domingo, 29 de Janeiro de 2012

O berço, capital europeia da cultura

  A cultura é  “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade” (Edward B. Tylor).

Foi à procura disto que fomos até Guimarães, capital europeia da dita. Aliás, é à procura disto que andamos há 13 anos pelos caminhos velhos deste país, à procura da cultura própria deste povo tão desprezada e esquecida pelas actuais gerações normalizadas. A riqueza dum povo é o que lhe é peculiar e específico, é a sua história, a sua diferença. O hambúrguer é igual em Lisboa e em Tókio (e não presta...), o caldo verde é único no mundo e é português (e que bom...). Quem visita Portugal o que procurará, um snack bar ou uma tasca? Se quiser enriquecer a sua cultura, procurará uma tasca e uma sardinha assada, ou continuará burro como antes.

E com o bornal cheio de cultura, uns rissóis, umas tangerinas portuguesas, duas garrafinhas de vinho verde branco da quinta de Crespos, partimos à conquista de Guimarães, nem que necessário fosse bater na mãe! Fugimos das auto estradas normalizadoras e fomos espalhando a vista pelos campos onde vimos carros de bois a ranger por caminhos estreitos, chaminés a fumegar ternura em fins de tarde, e ouvimos cantaréus ao desafio em vindimas de vida e trabalho. Sim, não vimos nem ouvimos, mas imaginamos.

Nos nossos planos levavamos uma caminhada pelo alto da Penha durante a manhã, um almoço campestre debaixo duma árvore frondosa, e depois sim, um passeio pela urbe que foi berço dum país.

Mal começamos a caminhar, ficamos encantados e pasmados com a irresponsabilidade de alguém que se dispôs a brincar com rochas enormes atirando-as à sorte pelas encostas do monte e, não contente ainda, foi colocar algumas em posições estranhas e perigosas, mal seguras, à espera dum pequeno toque para desmoronarem ou para abanarem como se de um pequeno berço se tratasse. (será daqui o berço da nação?!) Obra de Deus ou do diabo, ou de homens loucos, não faltam passagens estreitas com pedregulhos mal seguros por cima, grutas, capelas escavadas na rocha, fontes, escadinhas, tudo com nome de santos. A começar pela capela de S. Cristóvão que dá abrigo a outros santos protectores de quem conduz carros, barcos ou aviões... Nossa Senhora do Ar que vela para que os aviões não caiam, e Nossa Senhora do Mar para que os barcos não afundem. E nós, os caminheiros? Não voamos nem afundamos, mas podemos tropeçar, não é? Pois... ficamos a pensar, a pensar e nasceu-nos uma ideia: porque não uma imagem do S. Cricalho, padroeiro específico dos CAmINhEIrOs de MerdA, também nesta capela? Será demais? Pelo menos uma gruta, uma fonte, um penedo, não?  Há o penedo do susto, há o desfiladeiro, há o penedo do barco, o penedo da mitra, porque não qualquer coisa S.Cricalho? Vamos qualquer dia fazer justiça.


 

Percorremos todos os cantinhos, subimos e descemos todas as escadinhas, passamos os desfiladeiros, entramos nas passagens estreitas (menos o "irmão" Leitão que não cabia), corremos perigos vários por baixo de pedras mal seguras, subimos e descemos todos os sonhos à procura de gigantes ou explicações para este cenário. Cada caminho levava a um sítio diferente, ou talvez o mesmo, que os penedos tinham formas e aspectos diferentes conforme o ponto de vista. Mas não deixavam de ser penedos nem deixavam de ser mistérios para nós, que para outros não, pois lá punham santos e milagres, capelas e fontes sagradas. Eu pessoalmente via uma paisagem celta, um bosque com árvores cheias de musgo, rochas enormes e recantos misteriosos onde os druidas se passeavam e escondiam observando-nos com ar estranho. Senti-me extraterrestre e órfão das explicações cósmicas do Kim, que desta vez não nos acompanhou. O alto da Penha deu-nos fome, e o frango com molho de limão que nos esperava no Pingo Doce espantou-nos na descida e matou-nos os problemas místicos.

Mesmo junto ao castelo, assentamos arraiais e tuperwares, bolinhos de bacalhau e frango saboroso e, observando-o em contra luz recortando o céu azul em forma de ameias, atacamos com fúria o vinho de Crespos... 

Começamos a tarde com uma visita ao castelo que achamos bonito diga-se, com umas linhas simples mas enquadradas e harmónicas, nada a ver com esses prédios modernos quadrados como quem os desenhou. O D. Afonso Henriques bateria em alguém como bateu na mãe ao ver a arquitectura actual... Sem cobertura no interior, a imaginação fazia o resto: as donzelas passeando-se nos seus vestidos de veludo compridos, os pajens perseguindo-as com piropos medievais, os guerreiros treinando entre si lutas com infiéis, e, lá em cima na sala, o primeiro rei de Portugal discutia em altos berros com a mãe. Uma donzela mais moderna e com um vestido muito mais curto, acordou-nos desta imaginação... e começamos a ver então no palácio dos duques uma fábrica de confecções, com chaminés e tudo, as quezílias do rei com a mãe simples questões de heranças e partilhas e, blasfémia das blasfémias, descortinamos na famosa estátua do D.Afonso uma pose pouca consentânea com a imagem de alguém que se dizia guerreiro e conquistador: afinal fomos à capital europeia da cultura para descobrir o primeiro Gay de Portugal!

Ficamos pouco sérios a partir dali, e começamos a falar alto a nossa loucura na tentativa de a partilharmos e trazermos para o nosso lado alguns das centenas de visitantes que connosco se cruzavam, mas, perante a sua indiferença, começamos a desconfiar mas é do vinho branco de Crespos. Uma senhora que se encontrava junto a estátua, ouvindo a nossa teoria benzeu-se e desceu os degraus dois a dois. Nós olhamos para a fábrica de confecções e encolhemos os ombros... 

Passando pelo centro mais concorrido da cidade, vimos muita gente passeando pelas ruas, vimos monumentos e um casal de jovens espanhóis a cantar uma cantiga de um tal "pajarito" com uma guitarra e um violino... muito pouco para uma cultura que se quer também de rua, de partilha descontraída com todos, exactamente o que quisemos fazer junto à estátua.

Deixamos a cultura e a cidade, deixamos o berço e o rei a discutir com a mãe... e uma decisão tomada: este será o penedo do nosso padroeiro S.Cricalho, que não é menos que os outros!

 

escrito por xapim às 23:21
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