Domingo, 7 de Janeiro de 2007

Porto Manso, 07 de Janeiro de 2007

Bela vista do Douro, dum local onde ninguém passa, só os cAminHeiros de mErdA...
  vista de Porto Antigo

Eram exactas as 08H30 quando quatro gatos-pingados (não fedorentos mas de mErdA ) se reuniram em Porto Manso, Pala, junto ao rio Douro, onde este é mais largo e profundo, e guarda na sua imensidão todos os segredos da sua velha e rica história. O rio não acaba aqui, ainda tem uma dura caminhada até ao mar, mas o seu passado, leia-se percurso, já é tão rico e prenhe de histórias da sua luta e da dos homens, (que moldaram as suas margens e com ele travaram batalhas heróicas de rabelos, correntes e mortes) que aqui teve de parar, respirar fundo, encher-se e espreguiçar-se pela paisagem.
Como brinde pela nossa persistência nas caminhadas pela natureza, vimos um pato bravo em passada larga a descer o rio voando numa linha perfeitamente recta que só alterou para, ao resolver cumprimentar-nos, fazer uma aterragem perfeita nas águas meias turvas do Douro. E ainda antes de nos aproximarmos do nosso percurso marcado, tivemos de nos deliciar com o voo compassado e largo duma garça ou cegonha (para nós era indiferente o nome mas não a beleza) que, mesmo por cima de nós, se desviou do rio e dirigiu para a bela encosta salpicada de casas como que a dizer que já estava familiarizada e ambientada aos homens… Mas continuou o seu voo e desapareceu por entre as altas árvores que culminavam a encosta.
Só sabíamos que era uma calçada romana que dali iria até Ancêde, mas ficamos a saber o resto ao lermos o que um painel ali colocado pela autarquia (parabéns!) nos dizia: este troço faz parte da via romana que liga Emerita Augusta Merida, Espanha) a Bracara Augusta (Braga, Portugal), passando por Tongobriga (Freixo, Marco de Canaveses). Com a leitura deste e outros painéis o sabor da caminhada foi diferente e muito mais rico.
Iniciamos a subida, já ensaboados de história, e admirámos os trabalhos duros dos nossos antepassados que, após terem atravessado o Douro desde Porto Antigo, na outra margem, até Porto Manso, já deste lado, ainda tinham que subir esta rampa enorme e inclinada carregados dos seus haveres, armas, mercadorias e fragilidades… E subiram ainda mais na nossa consideração, pois estas obras não só serviram todas as gerações desde há dois mil anos nas suas labutas guerreiras e comerciais, como ainda se mantêm hoje intactas e úteis (até para os caMinhEiRos de mErdA ), ao contrário das obras do homem moderno que, após abrigarem umas vidas apressadas durante duas ou três décadas, são reduzidas a pó pela sua inutilidade e insegurança. Os romanos eram mesmo loucos, se calhar até de mErdA!
O "mais velho" Abraão, judeu circuncidado, em Ancêde

    O rio Ovil acompanhava-nos à esquerda, lá no fundo, com seu leito de enormes pedras polidas pelo tempo, por entre as quais a água, em brincadeira, ora se escondia ora aparecia numa correria apressada mas serena e límpida. E foi testemunha como nós dum esquilo nervoso que descia com perícia uma enorme árvore assustado pelo ruído dos nossos passos. Já cansados duma subida íngreme e dura apesar do nosso traquejo, parámos para saborear umas tan
gerinas que o Kim trouxe para dividir connosco (o Abraão, judeu e circuncidado, nunca traz, claro… é judeu). E abençoada paragem, pois foi só dar mais uns passos ao lado para nos sentarmos numa pedra histórica e ficámos logo bêbados e atordoados pela enorme paisagem que se estendia à nossa frente… A sério, já vimos tudo, já vimos o Douro de todos os lados, mas ainda tínhamos esta surpresa reservada! Não dá para descrever, não há literatura para o fazer, se calhar nem a rudeza das letras de Camões. As fotos podem dar só uma ideia. “Ó meu amor de algum dia, havemos de lá voltar…”
Lá mais acima, já mais perto da civilização, a via romana cortada por passagens recentes à força de máquinas ou coberta pelo cimento passageiro que é invenção da tecnologia do homem moderno e ignorante. Ainda deu para ver mais dois painéis, um com mais explicações eruditas de história, outro trabalhoso e colorido e bonito, feito de pequeninas pedras coladas, representando um soldado romano com as suas armas e insígnias. Mais uma vez, parabéns à autarquia.
Após uma discussão sobre uma pequena construção redonda que parecia desde um moinho de vento a um “castro” ainda intacto, resolvida pela visão inteligente e perspicaz do Abraão, judeu e circuncidado, que viu uma pequena cruz lá no alto (era uma capela…), a próxima memória da viagem foi o Mosteiro de Ancêde .
Obra antiga de que não sabemos a história (mais uma curiosidade a abater) a sua dimensão é a primeira nota a tomar, sendo a segunda o estado lastimoso em que se encontra um dos pavilhões. A sua beleza não admira porque obra de homens do tempo em que se construía para perdurar. Na igreja onde só o Xapim entrou (porque será? do guaraná não é com certeza…) é notória a arte, a construção das colunas enormemente altas e dos arcos que as unem, o contraste entre a idade mais avançada das pessoas que se sentavam ou ajoelhavam na coxia central e a dos elementos do grupo coral que ensaiava cânticos de glória, e o “silêncio” que põe dentro de quem lá entra com fé ou sem ela.
A partir daqui, e após o registo fotográfico que podem ver nos "links” anunciados, foi só descer uma estrada, onde nem os santos ajudam, até Mosteirô  Ainda deu para ver uma casa senhorial portuguesa, abandonada pois claro, dos tempos em que não era preciso pagar ao povo trabalhador que labutava duramente nos campos do senhorio e da vida. Aproveitamos mais umas frescas e sumarentas tangerinas a que se chegava da estrada sem o senhorio ver, e calcorreámos o resto do caminho, enquanto o Abraão, judeu e circuncidado, levava com umas cascas na cabeça sem protestar. O Kim fazia contas às fotos que já tinha sacado, fazia propaganda à melhor câmara fotográfica para o Xapim comprar, e o irmão Leitão, perspicaz, com a vista ao longe a ver se dali se via “a minha casa” com a “caixa do coreio ”. O Xapim , coitado, coxeava ansioso pelo (sera)fim, já com Porto Manso à vista. O Abraão só queria beijar toda a gente... (assim se chega à terceira idade!)
O Douro lá estava, enorme testemunha de mais uma histórica caminhada dos cAmiNheiros de mErdA .

             Vista de Porto Antigo, em frente a Porto Manso

Partimos e a chuva eram lágrimas, mas de quem?!
eu?: d'ouro, pois claro
som: Verdes anos (Carlos Paredes)
escrito por xapim às 21:19
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1 comentário:
De kimfreitas@sapo.pt a 15 de Janeiro de 2007 às 20:50
Olá amigos! Realmente o rio Douro gratifica constantemente quem o admira e procura conhecer melhor, atraindo de forma persistente os olhos de quem o observa; é sem dúvida dos sítios mais bonitos e originais do nosso espantoso Portugal, pena é que a maior percentagem da população não valorize o que temos cá dentro..caminhar junto ás margens ou nos múltiplos relevos das montanhas dá um prazer ímpar estimulando corpo e alma, é algo que recomendo a toda a gente..até à proxima caminhada..


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