Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Caminheiro de cocó

 Vista da albufeira da Pala, de cima da ponte
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É assim que se chama qualquer candidato a cAmiNhEiro de MerdA durante a fase de recruta ou iniciação. Tem que passar por algumas provações, e só após demonstrar vício e loucura suficientes, pode ostentar o nome definitivo.
O Filinto aceitou, neste domingo bonito de Novembro, correr o risco de fazer connosco a caminhada da Pala, como chamamos ao percurso que, iniciado junto à barragem de Carrapatelo e indo sempre junto ao rio Douro, vai até Porto Antigo e acaba depois no mesmo local da partida. E correu o risco porque, para começar, a distância de 16 kms não será propriamente a mais indicada, apesar de ser quase sempre plano e não exigir tanto esforço físico como a montanha.
A manhã era fresca, o vento cortava um bocadinho as faces e as orelhas, mas o céu tão azul e a luminosidade avassaladora que inundavam o dia, e sua majestade o rio Douro sempre ali ao nosso lado, faziam esquecer qualquer fraqueza que pudesse abalar a vontade de um qualquer iniciado caminheiro de “cocó”. E o Filinto lá nos acompanhava nos passos e nas palavras, nas ideias e na vontade, e até nas conversas que, dada a presença dum novato, os caminheiros mais veteranos procuravam manter dentro dos limites da decência social e humana…
E a persistência do iniciado, assim como a vontade dos mais velhos em mostrar algo inédito daquelas ofertas em que a natureza é pródiga nestas viagens que fazemos, foram premiadas com um louco pato bravo (e negro) pousado na ponta dum daqueles “pontões” para os barcos que entram pelo rio dentro, de asas abertas contra o vento como se quisesse refrescar-se ou secar o suor dum longo voo desde Barca D’Alva… Deu tempo para o observar, fazer uma mesa redonda para discutir qual a verdadeira razão daquela atitude, tirar fotografias para a posteridade, e só uma tentativa dum grande plano demasiado perto da sua intimidade o obrigou a dar uma volta larga ao longo do rio para, logo que nos afastamos, voltar à sua louca curtição…
Mantendo o passo descontraído, mas suficientemente cadenciado para usufruirmos dos benefícios do exercício físico, depressa chegamos a Porto Antigo, lugar que convida ao repouso do corpo e do espírito. E ao reconforto do estômago, com uma frutinha trincada com prazer e uns golinhos de água… que nós não andamos aqui a brincar, nem convém dar mau exemplo ao novato caminheiro de “cocó”. Durante este intervalo, deu para observar a selecção de remo da Rússia a fazer o aquecimento e o treino nas águas propícias da foz do Bestança, atletas com um tronco impressionante em cima duma canoa tão frágil que cortava o rio com ligeireza e elegância. O treinador, autoritário em cima do pontão, só dizia “oupa!” e o atleta arrancava como um fórmula 1, as pás do remo como asas de gaivota levantavam e pousavam na água levantando raros salpicos tal a precisão do ângulo de mergulho. Imagem bonita de ritmo, de esforço, de dança, de sincronia… que fez com que não caíssemos na tentação de berrar um “oupa” antes do treinador e estragar a sintonia com que tudo aquilo funcionava!
Mas o melhor estava para vir, e a surpresa veio do novato que, perante o desafio de regressarmos pela linha do caminho-de-ferro passando as duas pontes, (sendo uma delas duma altura assustadora… para quem não for cAmiNhEiro de MerdA) foi o primeiro a desviar para o acesso que nos levaria a mais essa aventura. Para não mostrar medo ou pelo que quer que fosse, deixou-nos numa situação de não retorno! E lá fomos, subimos a rampa até à linha, já na companhia dum cão (mais um…) que nos achou simpáticos por lhe darmos de comer ainda em Porto Antigo, e perguntamos a umas senhoras que passavam se o comboio dava boleia se nós pedíssemos, ao que responderam muito sérias que não, e que ainda demorava 15 minutos a passar. (percebi, com esta informação do tempo, que elas quiseram pensar “deixa-os tentar…”). Fizemos os nossos cálculos, e dava tempo de passar a ponte mais pequena antes do comboio. Assim, íamos no espaço entre as duas quando o “touro de ferro” aparece lá no fundo a apitar continuamente com todo o gás, trap trap trap, obrigando-nos a encostar à rampa que, naquela zona, deixava tão pouco espaço para nós e para o comboio, como para a coragem que naquele momento nós gostaríamos de mostrar. Mesmo assim, o autor destas linhas ainda arriscou o braço, estendendo-o a pedir boleia, para que as senhoras, se estivessem a espreitar, não ficassem a pensar que éramos malucos.
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A grande ponte                                                                          O cão, o Leitão, o Filinto, o Xapim
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E o caminheiro de cocó, impávido como um veterano, “vamos que se faz tarde” e a linha é comprida… E lançámo-nos à conquista da grande ponte, não sem que nos lembrássemos de repente do amigo cão que nos acompanhava com receio que tivesse ficado debaixo do comboio. Mas não senhor, “sou batido nestas andanças, sou cão vadio”, ladrou.
 Bem, aquilo impressiona… pela grandeza, pela altura, pela beleza da pedra, pelo génio da sua feitura e simplicidade proporcionadas, pela sintonia com a natureza, mas acima de tudo pela fragilidade que nos invade ao caminharmos pelo passeio para “peões” protegidos por um simples corrimão de verguinha! Ficamos tão pequeninos e com umas ondas estranhas que correm por dentro das pernas e passam arrepios pelo corpo acima (é medo?), que, numa demonstração de coragem, saltamos para o meio da linha de peito feito ao mais descarado comboio que se atrevesse a enfrentar um caminheiro da nossa estirpe! Há a canção que diz “ a ponte é uma passagem, para a outra margem”, foi essa ponte que passamos para a outra margem do medo.
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Os 3 corajosos... (Kim é o fotógrafo)

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Já do outro lado, partilhando restos de biscoitos e bolachas com o nosso amigo cão, que de nós não quereria só esses restos com certeza, encaramos o regresso ao ponto de partida com a sensação de dever cumprido e de satisfação pelo desempenho do novato caminheiro de cocó que esteve sempre à altura dos acontecimentos.

O rio Douro sempre calmo e imponente a caminhar agora na mesma direcção que nós, os últimos retoques nos temas de conversa e nos planos próximos futuros, depressa chegamos ao ponto de partida, agora com um problema emergente: o que se faz a um cão que nos vê a primeira vez, confia em nós, nos segue por caminhos perigosos e pontes mais ainda, que já ladra connosco, que nos defende de outros da sua raça que não percebem a nossa passagem?
Entramos no carro, arrastando connosco se calhar o último sonho dum cão em ter um dono, e observamos com pena o seu focinho, triste e incrédulo, a seguir-nos até à última curva da sua esperança…

 

eu?: Cachorro
som: D'artacão
escrito por xapim às 09:43
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