Sábado, 3 de Maio de 2008

Recordando o rio Paiva

Mil águas caem em filas verticais lá fora, estamos em Abril, diz a sabedoria popular e o calendário gregoriano. A minha alma está do lado de cá do vidro, mas a humidade e o céu negro são coisas que se entranham e os vidros suam lágrimas que serão saudade, se calhar duma caminhada, se calhar duma alegria, se calhar dum encontro. É a sina dum caminheiro, caminha porque procura, porque tem selo de peregrino e não tem carteiro que o leve ao destino, coisa em que não acredita.
Não houve caminhada este domingo, e apetece-me ir ao baú da memória buscar algum facto marcante que condiga com esta merda de dia. Lembrei-me do rio Paiva, foi também num domingo chuvoso que fomos à aventura sem trilho marcado, e quase por acaso visitámos-lhe a foz, que é onde os rios morrem, ali mesmo onde bate na Ilha dos Amores e volta à água donde veio. Os rios são como nós, de quem a Bíblia diz “do pó vieste, ao pó voltarás”..
 
Foz do Paiva (foto Kim)
.
Não é fácil escrever quando os sentimentos são um turbilhão, e hoje mais ainda por causa do que li do acordo ortográfico, que não sabia tão complicado e com tantas ramificações… Não sei se siga a “variante luso-africana” se a “variante brasileira do português”, se o IP4, se o mirandês, se a minha própria. Talvez opte por esta, é na que confio mais, até porque o corrector do Word marcou-me a vermelho a palavra “luso-africana” com o hífen no meio, oferecendo-me como única alternativa o “luso-americano”! (que ironia)
Foi sem hífen no nosso meio que resolvemos caminhar, tipo bandeirantes, à descoberta das margens do Paiva e da vida que ainda o acompanha na sua caminhada, vida que é de facto (ou de fato?) já pouca. São muito mais os sinais duma actividade que já foi fervilhante e agora não são mais que ruínas inundadas de silvas e muros caídos. Dá pena ver abandonados caminhos que já acolheram tantas passadas, onde ainda se podem ouvir ao longe os cantaréus das mulheres com gigos cheios de uvas à cabeça, e os miúdos a correr com latinhas na mão cheias dos baguinhos caídos… E mesmo em frente à Ilha dos Amores, esfregando continuamente, outras mulheres lavavam toda a espécie de roupa, e não só a que vestiam, deixando ir para o rio, misturada com a espuma, toda o sujidade que saía do trabalho das mãos e da má-língua. Pelos mesmos caminhos passava a vendedeira de louça, a bicicleta do galinheiro, o padre que levava a extrema-unção, a junta de bois com um carro cheio de milho, o moleiro aliviado com os burros carregados, o barbeiro de malinha na mão… Tudo isto é saudade, agora o que existe é só a tristeza que estes simples e pobres cAmiNhEiros de MerdA carregam, tristeza que nos pesa mais do que a farinha pesava aos burros. E entramos, desfiando as silvas agrestes e agressivas, numa casa inundada de abandono mas ainda carregada de símbolos duma actividade que fazia esta terra mais bonita e muito mais agradável: o lagar, a dorna, a pedra enorme e a trave que, gemendo, apertavam as uvas já pisadas até darem o precioso líquido que alegrava o coração dos homens, e o das mulheres também nem que fosse nas inocentes sopas de vinho com broa e açúcar. Foi com algum aperto na alma que, no cimo das escadas, estendemos os nossos olhos desde as memórias tão relembradas, percorrendo os campos e saltando os muros, até às águas do Douro e do Paiva, testemunhas impávidas da história e da nossa tristeza. A chuva apareceu, como que a fazer-nos companhia, e molhou-nos também o corpo...
 
  
(Foto Leitão)
 
.Como caminheiros que nos prezamos, continuamos a nossa empreitada indiferentes ao mau humor da natureza. Mau humor quererá dizer mau tempo, coisa que não existe, como o confirmam as palavras sábias do grande e mítico Antímio de Azevedo: “não há mau nem bom tempo, há simplesmente a manifestação da natureza na sua pujança; o agricultor precisa tanto da chuva como do sol, cada um na sua altura, tem é que se adaptar a eles.” É o que falta hoje no mundo, perceber que a natureza é a própria essência do sítio onde vivemos, é o nosso berço, a nossa fonte de alimento e de ar para respirarmos. Durante milhões de anos o homem viveu em consonância com ela, sem a tentar modificar, e hoje, em poucos anos, desencadeou uma destruição maciça que está pôr o planeta à beira da destruição. Há 40 anos quase se podia beber água dum ribeiro onde brincávamos, hoje não se lhe pode sequer tocar com a mão!
Após caminharmos um bocado a alguma distância do rio Paiva, encontramos então a estrada que o ladeia até à ponte da Bateira. O GPS do Kim não dava a certeza para onde iríamos nem como haveríamos de regressar, indicava uns “caminhos” um pouco confusos, mas os palpites do Xapim (azimutes assimilados em longos treinos na tapada de Mafra, onde quiseram fazer dele militar, que piada…) superaram as coordenadas tecnológicas do GPS e levaram estes tristes romeiros a bom porto, que quer dizer Escamarão, de onde partimos e a onde chegamos..
 
   
(Foto Leitão)
 
O rio Paiva é bonito. E rio não é só a água que a gente vê correr lá em baixo, em locais mais sossegada, espreguiçando-se disfarçada numa margem mais apetecível, noutros mais atrevida, atirando-se buliçosa e em espuma contra pedras ou árvores intrusas. Rio, quero eu dizer, é toda a envolvente que compõe este quadro natural, sem estilo predefinido mas dum jogo de cores e movimentos impressionante… Apetece correr, abraçar o ar, gritar alto qualquer coisa sem sentido, cheirar as cores e guardá-las, circundar as árvores de braços abertos, ser espuma para ir nas águas também… ah… e voar, voar, que sonho, voar por sobre aquilo tudo!
Pois, voar era bonito, mas o “irmão” Leitão não pode, não é por ser pesado, mas… Fomos então visitar o rio mesmo à beirinha, sentir a sua água, ouvir a sua voz, seguindo o chamamento que já vínhamos a sentir há muito tempo. Entramos numa ilha que tinha todas as marcas da passagem das águas brincalhonas do rio, árvores com as raízes à mostra (numa imagem erótica), milhares de pedras de todos os tamanhos, de formas e cores originais fruto de trabalho artesanal e persistente, margens escavadas que são esconderijos de peixes e brincadeiras… Sentimo-nos num barco, e navegámos assim um bocado.
..

         

(Foto Kim)

 

Tanta emoção abriu-nos o apetite, pois. E a chuva quis acompanhar-nos no repasto, o que nos obrigou a comer de pé e a improvisar uma cobertura com os guarda-chuvas. O pão, o queijo, o doce, o mel, a água, o sumo, foram para o corpo. Com os olhos atestámos a alma. E assim sentimos forças para iniciar a segunda parte da caminhada, ainda sem sabermos de certeza a rota mas com vontade de dar a volta ao mundo se preciso fosse. Confirmando-se os palpites, avistámos a ponta da Bateira lá ao fundo, facto efusivamente festejado pelo Xapim em cima do muro que acompanha a estrada. Paramos um pouco na ponte, falamos do que alguém pretende fazer neste rio (literalmente destruí-lo), e arrancamos no regresso, agora pelo caminho já confirmado também pelo GPS, facto que deixou o Kim mais satisfeito pelo investimento no aparelho. 

E agora? Pois, o “mais velho”, o judeu circuncidado Abraão, não veio nesta caminhada porque fazia 69 anos… E, querendo prestar-lhe a homenagem que ele merece, mandámos-lhe uma mensagem de telemóvel todos ao mesmo tempo. Depois ligámos-lhe, mentindo sobre o local onde nos encontrávamos, e perguntámos como se sentia, se estava tudo bem. Disse que sim, e que “estava a fazer o sessenta e nove em casa, aliás como sempre”. Não percebemos, mas ele é assim… perdoámos-lhe.
A chuva continuou connosco, não nos largou no resto do caminho, e até nem nos importámos com a companhia, achámo-la agradável. Descemos pela estrada do Castelo, passamos a ponte que separa os concelhos de Castelo de Paiva e Cinfães e chegamos a Escamarão. Ponto de partida, ponto de chegada. A bela igreja românica que nos viu partir, maltrapilhos destes caminhos de Portugal, viu-nos chegar. Só foi pena o mítico “Foto Escamarão” não estar ao serviço para registar este momento.  
 
Continua a chuva lá fora, escorrem lágrimas ainda pelos vidros. Cá dentro também.
 
escrito por xapim às 20:13
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