Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Agora o Bestança

 

Festa é festa, e em 25 de Janeiro fizemos mais uma caminhada. Tentamos por diversas  vezes, na nossa história de caminheiros, calendarizar antecipadamente a caminhada do domingo seguinte: fazendo uma escala em que um de cada vez marca o próximo percurso, fazendo um plano mensal, ou até encontrando-nos sempre em Montedeiras se até sábado à noite ninguém ligar a propor algum percurso alternativo. Pois bem, nunca houve hipótese de nos entendermos... Ou porque o Kim escolhe sempre serras com subidas íngremes e prolongadas (agravado com a mania de que o gps é que sabe por onde devemos ir), ou porque o Xapim propõe sempre uma caminhada surpresa e no dia vai parar sempre ao percurso da Pala, ou porque o Abraão fez o plano mensal e a saída é sempre à porta dele, o Leitão não sei porquê.... Enfim, não há modo de nos entendermos, de fazermos uns estatutos, uma assembleia geral, escrevermos as regras, enfim... será por isso se calhar que caminhamos juntos há tanto tempo: libertos de tudo.

Bem, neste domingo (25 de Janeiro), não sei por decisão de quem (do Xapim concerteza pois foi uma manhã muito agradável), fomos de carro até Pias, local muito perto da foz do rio Bestança e onde existe uma ponte, um moinho antigo e um belo parque para merendas, para dali arrancarmos pela margem esquerda e fazermos o regresso pela margem contrária.

 

 

Pareceu-nos, e preocupou-nos, que o rio vinha muito sujo, mas uma observação mais atenta levou-nos a concluir que, dada a violência do tempo chuvoso dos últimos dias, aquela cor vinha das terras arrastadas pela força e abundância das águas. O céu estava carregado de nuvens negras que escondiam por trás muita água, e que ameaçava por à prova a resistência dos nossos guarda chuvas, mas é este ambiente que mais nos incentiva a ir, arriscar, apreciar a força da natureza nas suas mais belas manifestações (que frase, meu deus!). Conforme íamos subindo, verificávamos que o rio, embora sempre selvagem a cavalgar rochedos e arranhar margens, já vinha mais limpo. Comentávamos, nas nossas costumeiras conversas profundas e cheias de sabedoria, o que seria a vida aqui nestes campos ainda há poucos anos, com pessoas sem internet e telemóvel mas mais felizes, com os animais que comiam, trabalhavam, estrumavam e davam de comer, com o ciclo da vida na sua quase perfeição em que "nada se perde mas tudo se transforma". A mesma água que regava os campos do milho, chegada ao rio activava o moinho que moía os grãos dourados e os transformava em farinha, que por sua vez fazia o pão cozido no forno cuja tampa era vedada com a merda fresca dos bois que comiam os troncos dos milheiros! A água continuava e, lá em baixo, voltava a fazer a mesma coisa. Coisa tão simples, e agora tão complicada pelos homens ditos mais inteligentes, mas cada vez mais insatisfeitos e desequilibrados.

 

Enxidrô

vista de um afluente do Bestança

 

A paisagem é deslumbrante, mas sobretudo aconchegadora, apesar da saraivada (queda de granizo) que levamos nas costas quando descíamos de Enxidrô já em direcção à ponte (medieval? esclareçam-me leitores) que atravessa o Bestança para a outra margem (para onde havia de ser?). A calçada tinha marcas de rodas de carros-de-bois rasgadas nas pedras, e no ar sentia-se uma nostalgia de tempos passados, de pessoas a descer e a subir, "como vai Sr. Manuel, como passou Ti Maria", de cantaréus nas encostas, de espigas a dourar ao sol,  e a música das águas lá em baixo num acompanhamento sinfónico perfeito. Mesmo à saída da ponte lá estava o moinho, velho coitado, ainda esperançoso em que lhe arranjem um lar da terceira idade onde se possa rejuvenescer e receber visitas de quem dele goste.

Na subida de regresso, levamos com mais uma carga de granizo que deixou o velho caminho cheio de bolinhas brancas, pouco a pouco, e em grupos numerosos, rolando na descida em direcção ao rio, qual destino escrito há milhões de anos pela mãe natureza. Conforme nos aproximamos do asfalto que nos leva ao ponto de partida, vamos sentindo assim como que uns apertos de saudade, pois temos vontade de ser sempre caminheiros, pisar os caminhos que mais ninguém pisa, falar com pessoas com quem ninguém já fala, pessos que já nem contam... pois claro, vivemos numa época já muito evoluída!

As ultimas sensações, já em Ferreiros de Tendais e passado o granizo, foram a sede da Banda de Música, (há vida nestes locais, senhores governantes!) a velha igreja, mesmo pegada uma velha casa à venda, e, o mais emocionante, uma casa inteira de 2 pisos com portão, com escadas, com varanda, com janelas, ocupada por uma família de galinhas... Saindo da cozinha como quem já deixou a louça lavada, saindo da sala em passo lento e cantarolando de dever cumprido, subindo as escadas como quem chegou do campo ao fim do dia. Na natureza nada se perde, tudo se transforma.

Transformado como está o rio Douro, no seu jeito fidalgo e de fato domingueiro, nem assim evita a crise mais estúpida em que os mandantes do mundo resolveram colocar toda a gente, menos eles!!! É este o último pensamento ao atravessar a ponte de Mosteirô, sobre um rio tão transformado, tão inchado de vaidade postiça. Seria muito melhor quando era um simples bestança.

Antes caMinHeiRo de MerdA toda a vida.

eu?: Monamgambê
som: Rui Mingas
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escrito por xapim às 17:41
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1 comentário:
De Naturlouco a 30 de Maio de 2009 às 09:43
bom dia
reparei que falam em GPS no vosso comentário do percurso, seria possível enviarem-me os tracks das vossas caminhadas?
obrigada
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bom dia <BR>reparei que falam em GPS no vosso comentário do percurso, seria possível enviarem-me os tracks das vossas caminhadas? <BR>obrigada <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ caminhadasdorafa.blogs.sapo.pt /


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