Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019

Shift, o poeta destroçado

Poema de saudade à minha querida motherboard:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(O Shift escreveu um poema e pediu ajuda ao Seta pr’a Baixo para o lerem todo e verem se havia algum erro.

Para ouvir a opinião final o Shift foi pedir ao Delete…)

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escrito por xapim às 12:49
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Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Por acaso, Boelhe

Podem fazer-se viagens casuais. Quando ao acaso, deviam ser acasuais que é a negação de casual, mas neste caso foi quase. Quase casual ao acaso.

Embora as pontes sobre o mais baixo Tâmega sejam modernices do século passado, as histórias do início da nossa história dizem-nos que a forte ligação entre as duas margens superava qualquer entrave pela sua ausência. As escaramuças com os sarracenos que ainda andavam por aqui, as igrejas e mosteiros que polvilham a região provam que essa dificuldade era superada com arte e bravura.

Numa passagem (a)casual, a igreja de S. Gens de Boelhe, embora quase escondida, chamou-me a atenção ali envergonhada e encolhida ao lado da igreja “nova”… Parei propositadamente para, no silêncio e solidão do momento, melhor observar este monumento “desconhecido”. Fui educado religiosamente na minha infância neste ambiente, cercado por pedras como estas carregadas de história, mistérios e lendas, túmulos pesados, púlpitos e sermões, sinos, arcos, azulejos com imagens de mulheres e coelhos e pássaros com uma pata levantada. Impossível ficar indiferente quando encaro um monumento como este. Lembro o abade, o grande livro com imagens de deus, do céu e dos infernos, a salve rainha, a catequese que me adensava os sonhos de menino…

Ao aproximar-me para lhe observar os vários ângulos, vi um caminho velho contíguo à igreja com uma moderna placa que dizia “rua Rainha D. Mafalda”. Mafalda? Lembrou-me a que passou em Alpendurada e deixou um memorial, e que passou em Irivo, e que passou em Castelo de Paiva, e que acabou no vetusto convento de Arouca onde era religiosa. Terá passado aqui para atravessar o Tâmega? Por esta “rua”? Talvez, até por um acaso acasual como eu.

E fui espreitar fugazmente a história desta igreja baptizada (com “p”) como de S. Gens. Mandada construir não se sabe se pela Mafalda esposa do Afonso nosso primeiro, se pela Mafalda (santa) filha do primeiro Sancho. Que pelos vistos andaram por aqui as duas. Ora então, porque não a mão desta santa também nesta igreja, que não só nos memoriais?

E já que também se diz à boca cheia que esta história da Mafalda (santa) dos memoriais também é lenda, eu posso usar a minha imaginação para inventar e acrescentar que “de facto” ela passou por aqui a caminho de Alpendurada com destino a Arouca. E fiz um mapa, e comparei os arcos e as pedras dos monumentos. Achei giro.

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escrito por xapim às 23:27
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Domingo, 11 de Agosto de 2019

O regresso

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            O regresso pressupõe pelo menos uma ida (ou idas), falando de pessoas, coisas, acontecimentos, até de sentimentos. A saudade faz um percurso contrário: quando uma pessoa parte ela vem, quando se chega ela vai. Mas pode ser mais complicado ainda... haver uma troca de saudades. Vai-se a saudade do local a onde se regressou, e vem a saudade do local de onde se partiu! Não sei se a água tem sentimentos, mas a do rio Douro, que fomos visitar neste 11 de Agosto, também vai e depois volta, não sei se com a saudade se com a pressa de depois regressar, se em forma de nevoeiro quando vai e de chuva quando regressa. Mas sim, acredito que este rio tem sentimentos.

           Por falar em regresso, tivemos hoje connosco o amigo TiagoTeixeira, o nosso benjamim há muitos anos! Após 78 SMS trocados no sábado, nada falhou e à hora 30 vezes combinada apanheio-o no local marcado para nos dirigirmos ao início da caminhada, Barragem de Carrapatelo, margem esquerda do rio.

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           Ir e voltar é o ciclo infindável da vida. Os passos que começamos naquela curva de estrada, sob a qual passa um regato apressado em chegar ao rio, são cadências de idas e regressos, um pé avança e fica à frente, logo o outro vai e o primeiro regressa a trás. Nas bermas da estrada, além de grande variedade de plantas e árvores, cresciam silvas enfeitadas com pequenos ramos de amoras, umas vermelhas outras tentadoramente pretas de maduras. Eu e o "irmão" Leitão, vetustos cidadãos de meados do século passado, deliciando-nos com as maduramente mais deliciosas regressamos numa pressinha à nossa infância e lançamos o repto "gostas de amoras? vou dizer ao teu pai que já namoras". Coisa estranha para o Tiago, também do século passado mas dos fins do mesmo e já virado para outras"tecnologias".

          Os cães também regressam. Temos velhas histórias de cães amigos que nos surgiam pelos caminhos, ladravam mas nós traduziamos logo que era a dizer "bom dia, bem vindos" e eles abanavam o rabo. Nós dizíamos "caminheiros como nós" e eles respondiam "cães como nós", e acompanhavam-nos na caminhada enquanto desse ou lhes apetecesse.  Pois hoje fomos visitados  por mais um. Cruzou-se connosco, amarelo, ar de simpático, mas muito receoso. Dissemos "bom dia" na linguagem de cão, e apesar de ele continar o seu camimho reparámos que olhava de lado, e então o convidámos a vir connosco. Muito hesitante de início, e observando-nos de longe meio escondido, lá resolveu acompanhar-nos e mostrou-se simpático mas também carente derretendo-se ao mais pequeno mimo. Abandonado?... Regressou (lá está...) connosco à curva de estrada inicial e os seus gestos de despedida, quando partimos, não conseguimos traduzi-los.

           Míscaros, cogumelos, santieiros em Agosto? Fiquei parvo quando os vi, procurei uma ida qualquer que justifique este seu regressso apressado e não encontrei. Quanto mais conheço o homem melhor consigo traduzir o latir dos cães.

 

Regresso às fragas de onde me roubaram.

Ah! Minha serra, minha dura infância!

Como os rijos carvalhos me acenaram

Mal eu surgi, cansado, na distância. (Miguel Torga)

escrito por xapim às 08:00
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Segunda-feira, 5 de Agosto de 2019

Rio é mesmo de Moinhos

Rio é mesmo de Moinhos

Manhã serena de domingo convidativa para um pequeno passeio ribeirinho ao Tâmega na sua margem direita, onde a freguesia de Rio de Moinhos, deixando-se cair desde o alto da Senhora dos Remédios pelas encostas de floresta e terrenos cultivados, pousa finalmente junto às águas agora calmas do rio. Sim, agora calmas porque antes da construção da barragem não o eram, que eu conheço bem este meu amigo Tâmega lá mais para montante já desde o século passado!
Eu e o "irmão" Leitão, o grupo (poucos mas bons) que fez este passeio/caminhada, acabamos por não chegar à zona que pretendíamos mas andámos lá perto e de positivo trouxemos duas cousas: os azimutes para a próxima ida e passagens por caminhos velhos cheios de história.
E sentindo velhas histórias de mouras encantadas, de princesas prisioneiras, de formosas lavradeiras a cantar regressando dos campos, de velhos carros de bois a gemer e a marcar as pedras que pisavam, a formigar-me nos pés ao passar nos ditos caminhos velhos, fui espreitar alguma informação e verifiquei que realmente o nome tem a ver. Neolíticos, suevos, romanos e mouros andaram por aqui, como paróquia é anterior à nacionalidade (1097) e já se chamava Molinos por alguma razão, havendo registos da existência de 56 moinhos (!) em meados do século XVIII. A encosta para o Tâmega pressupõe muitos cursos de água, além do próprio rio onde conheci alguns mais a montante, talvez daí. Na altura toda a energia utilizada era renovável e bem aproveitada, sem danificar. É doloroso hoje ver o rio que conheci saudável todo verde de doença, é doloroso recordar que quando éramos miúdos brincávamos junto às ribeiras com as rãs e descontraidamente bebíamos da sua água límpida, é sobretudo doloroso pensar que em tão pouco tempo (décadas) tudo isto foi destruido... Processo irreversível? Sim, tanto como a ambição que o provoca.

Uma cobra na estrada, encarnação da moura encantada ou da princesa prisioneira, recebeu-nos prenunciando histórias... e nós fomos...

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ouvindo cantaréus de vindimas e sons de gigos carregados de uvas tintas à cabeça das raparigas passando no caminho

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ouvindo gemidos da princesa ecoando dentro dos muros do palácio

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e as sombras da moira encantada vagueando pelo caminho traçado a pedra delineada de onde não pode fugir.

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Para um final feliz, oferecemos-lhes um ramalhete de flores com  dedicatória: aos caminhos velhos.

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eu?:
escrito por xapim às 17:00
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Segunda-feira, 15 de Julho de 2019

Havemos de voltar

Olá pessoas!
20 anos de mErdA
E cá estamos nós, após um interregno de um pouco mais que um lustro com menos actividade visível devido à ausência do escriva-mor por outro continente em caminhadas alternativas, numa profunda reflexão sobre os 20 anos já passados desde os primeros passos nesta actividade de caminhar pela natureza com os pés bem assentes no chão e a mente bem levantada no ar em pesquisas e discussões atentas e constantes.
História foi feita (acontecimentos invariavelmente felizes no que a nós diz respeito), muita dela registada neste blog. Evoluímos em kms, em dificuldades e temas discutidos. Sentimo-nos felizes por nós, pelo incremento notável da actividade do pedestrianismo e outras agregadas. Mas...
Temos memória... E lembramos um dos locais mais percorrido e esquadrinhado por nós nos primeiros anos: Montedeiras. E é com saudade que recordamos a fauna e a flora que ainda por lá encontrávamos (apesar de alguma poluição de detritos ferrosos e óleo (!) provenientes de pedreiras), que nos levavam a fazer promessas constantes de campismo para podermos saborear melhor o silêncio e observar a vida natural em serena actividade. O que se encontra lá hoje? Pedreiras, estradas, pistas de motos e viaturas todo o terreno, ruído e competições destruidoras da vida natural! E se fôssemos buscar as memórias da infância e da juventude essa comparação ainda tornaria maior a nossa dor na confirmação definitiva de que a pegada ecológica do homem é efectiva e tremendamente destruidora !!!
Extrapolando deste exemplo que expomos, a conclusão é muito desoladora pelo que se pode observar noutros locais que se destinam (ou que para isso foram construídos) a actividades físivas saudáveis para pessoas que, preocupando-se com a qualidade da sua própria vida, têm forçosamente que se preocupar também, e sobretudo, com a saúde do planeta que lhes dá o alimento e o oxigénio que os mantém vivos. Damos um exemplo fresco e recente: fizemos um treino (para uma maratona qualquer que há-de vir...) na zona circundante do parque de lazer de Alpendurada e... não vimos mais os "tomates": CAÍRAM!
Simplesmente deplorável... garrafas plásticas grandes, médias e pequenas espalhadas pelo chão a dois metros do caixote do lixo ou ao longo do caminho à beira do rio... latas de refrigerentes, sacas plásticas, copos burger king com palhinha, copos plásticos, embalagens tetra pak... tudo utensílios altamente poluidores e utilizados pelo homem!
É tão lindo ver e ouvir tantos ecologistas nas redes sociais a darem lições de civismo, a jurar militância pela preservação da natureza, a partilhar artigos ou opiniões (que nem sequer lêem...) e depois assistimos a este espectáculo vergonhoso que, muito infelizmente, não se confina a este local que mencionámos. Perante esta degradação evidente, achamos que a maioria das manifestações públicas de militância ecológica não passam de simples calmantes para a consciência pesada, só pode.
Resumo desta constatação que gostaríamos bastante que fosse diferente: a prática (quase moda) do pedestrianismo e afins cresceu exponencialmente, com diversos, variados e originais aproveitamentos, mas a educação dos praticantes regrediu espantosamente.
E porque já lá vão 20 anos a pisar caminhos velhos, não nos sentiríamos bem a festejar este aniversário com um simples jantar pago pelo companheiro "kilapeiro" Kim. (que eu e o irmão Leitão não perdoamos...). Não querendo ficar só pela comemoração familiar lançamos então um convite alargado a toda a comunidade caminheira, crente e não crente, praticante ou não: venham abrilhantar esta efeméride fazendo connosco uma caminhada ecológica, no domingo dia 25 de Agosto, iniciada no parque de lazer de Alpendurada pelas 08h00 da mamnhã e passando por toda a zona ribeirinha do Tâmega, munidos de sacos, grandes ou pequenos, para apanharmos o lixo todo que encontrarmos pelo caminho (e que podem ver assinalado nas fotos em baixo). Quem for crente e não praticante, tem uma oportunidade de limpar a consciência. Quem não for crente, com a prática vai mudar de ideias quando encarar a triste realidade em que estamos a deixar este planeta que ainda por cima é o único que temos!
Agora está muito na moda dar nomes ingleses a diversas actividades, "sunsets", "summits", "parties", "dress code", "looks" etc. Para quem gosta, e para quem não gosta também, consultem este termo: PLOGGING. Engraçado não é? Podemos todos fazê-lo (o plogging), em grupo ou não, integrá-lo nos nossos hábitos lúdicos diários ou semanais, e com estes pequenos gestos (baixar, apanhar e levantar) aliviar um bocadinho o peso do lixo sobre o planeta e aumentar duma maneira simples o exercício físico. Certo pessoas? É, acreditem, a prenda mais satisfatória que nos podem dar.
Parece que estou a ouvir: "Ah, os outros deitam o lixo e nós vamos apanhá-lo?!" Deixem-se disso. Apanhar uma garrafa de plástico abandonada à beira do rio é um pequeno gesto para o homem mas uma enorme ajuda para a humanidade. Anotem, caminheiro de mErdA dixit.

Custa muito mais ver isto:

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A quem tem olhos e alma para ver isto:

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escrito por xapim às 21:39
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Crónica de MerdA 3 (o sol é perigoso)

Há uma angústia melancólica que guardo bem ainda na minha memória e que os fim das tardes intermináveis de verão me provocavam quando era ainda jovem adolescente. Uma sensação de tristeza, de despedida, de prisão invadia-me. O vermelho ardente e alaranjado do sol a pôr-se, as sombras da noite que se anunciavam e que pareciam em movimento como braços que me cercavam, deixavam-me quase prostrado... Aquele silêncio, os movimentos quase imperceptíveis da vida a recolher, a lentidão do tempo e dos pensamentos... 

O pôr do sol assusta-me ainda hoje, assim como outro trauma de infância: olhar para o céu estrelado mais de cinco minutos seguidos! Mas isto é outra história... para outras crónicas.

Em África, o pôr do sol é violento pelas suas cores, pela sua dimensão, pelos cenários que cria em conjugação com o meio, pelos sentimentos fortes que provoca. É fácil cair-se no lugar comum quando se fala de África. Quando fiz estas fotos e as observei, mil ideias me assaltaram a cabeça, escrevi dois "poemas" jogando com as cores, o arame farpado, a segregação, o sangue... Rasguei tudo, os papeis e as ideias, e sobretudo a intenção de complicar uma coisa que pode ser tão simples.

Agora olho para estas fotos e fico calmo e sereno: não faço mais nada que não seja deixar-me levar pelo pensamento, pois assim não tenho nem sinto limites ou horizontes, não tenho que ouvir opiniões nem críticas, e não fecho dentro de palavras mais ou menos coordenadas e rimadas aquilo que é impossível caber nelas. A meditação ajuda no auto controle, hei-de conseguir olhar para um céu estrelado durante mais de cinco minutos, ai hei-de...

escrito por xapim às 01:17
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Crónica de MerdA 2 (pregos e Mandela)

 

  Não tinha noção do que era a África do Sul, mas, mesmo de noite e na viagem do aeroporto até ao hotel, depressa a ganhei ao comentar para o taxista “ah, isto é igual à Europa”, “oh, beautiful” respondeu ele rindo-se. Dois factos confirmados num momento só: que realmente a África do Sul é como a Europa, limpa, ordenada, trânsito sossegado, carros todos direitos e nada de carrões, zona verdes, relva, e que os sul-africanos são simpáticos. Tudo isto eu confirmei na prática e por informações recebidas nos dias a seguir. E nota-se que as coisas funcionam, sobretudo. Não quero dizer com isto que tudo é bom, ou óptimo, sabe-se que nunca devemos julgar a parte pelo todo, para o bem ou para o mal. Mas, para quem anda por África, é este o primeiro impacto, nunca nos devendo esquecer que isto foi “inglaterra”. Sim, e apartheid… que hoje não se vê, abençoados ventos da história e heroicidade de um Mandela, para mim personagem dos séculos XX e XXI! Não vejo hoje, não só aqui como noutras paragens, diferenças sociais pela cor da pele, mas por outros motivos talvez menos óbvios mas de igual modo marcantes. Teríamos aqui dialéctica para muitas discussões, com certeza para outros fóruns que não estes, de MerdA.

As coisas iguais em todo o lado, são como uma família unida e feliz: não têm história, não têm acontecimentos relatáveis que interessem aos media, a colunas sociais ou crónicas que se querem com interesse. Chegar a Tókio e ir a um snack comer um hambúrguer, é como fazer o mesmo em qualquer outra parte do mundo, não tem interesse. Chegar a Lisboa e comer umas sardinhas assadas em Junho, sim, é único, é específico, inesquecível e irretratável. Isto para dizer que estar num hotel nos arredores de Joanesburgo é igual a qualquer outro lado, o interesse é nenhum. Mas estar numa sala de formação com um bielorrusso, um italiano, dois portugueses, três “mauricianos” (é assim que se chamam os habitantes das ilhas Maurícias?), dois bóeres sul-africanos… sim, é de interesse, é educativo e justifica citação numa crónica mesmo de MerdA. Será esta uma imagem que nos levará a falar duma África do Sul multirracial e multicultural, apesar de estes personagens não serem todos habitantes ou naturais da mesma? Deixo isto para algum entendido, ou antes distraído, que, num ligeiro descuido, se tenha mantido na leitura destas considerações até este ponto.

 Multicultural é, vi eu: logo no segundo dia um hóspede africano e negro com uma camisola do Benfica, impecável, limpa e nova. E recente pelo que a publicidade mostrava. Concordo que alguém discorde (sim, é uma quase repetição propositada), mas pelo menos cruzamento de culturas é. Mas podem começar pelo menos a pensar, pois ao jantar no restaurante que serve o hotel, deparei-me com uma pequena maravilha no menu: “prego roll, made the traditional Portuguese (sim, está com “P” grande) way, prepared in secret Portuguese (sim, “P” grande outra vez) recipe”. Claro, aberto a experiências e orgulhoso de tudo o que é português, tive que experimentar o que era comer um prego em Joanesburgo, e apesar de não ter a ver com um qualquer prego comido numa tasca do Marco de Canaveses, (os molhos eram tipicamente ingleses), já posso dizer “comi um prego Português nesta ponta de África por onde, há centenas de anos, heróicos portugueses passaram cheios de escorbuto e coragem enfrentando adamastores e, mais do que isso, incrédulos velhos do Restelo de então, apesar de não piores do que aqueles que hoje não sentem um bocadinho de orgulho do que os seus antepassados deixaram semeado por todo o globo terráqueo.

E que tal no dia seguinte um “Portuguese chicken prepared with our secret suice, and home made chips”? Sim, melhor e mais português que o prego, assim o prego eu que não sou Frei Tomás. Por fim um café expresso em chávena grande, com um pouco de canela espalhada estrategicamente… no prato. Visualmente muito bonito. Só.

escrito por xapim às 00:21
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2013

Crónica de Merda 1 (elefantes e portas)

O elefante Salomão (do livro que leio presentemente “a viagem do elefante” do galardoado José Saramago) viajou de Lisboa, via Valladolid, até Viena de Áustria. Não se comparam as viagens de então com as de hoje, aquelas sempre com os pés na segurança do solo e estas com a segurança também, mas das aves de ferro que sulcam os ares e nos colocam em continentes diferentes à distância do espaço entre duas refeições. Eu estou neste momento no aeroporto de Luanda a fazer tempo para embarcar para Joanesburgo, mais uma viagem pelos ares que num instante me coloca em locais onde, se viajasse como o Salomão, nunca conheceria na vida. Há muito quem fale e escreva sobre o mundo dos aeroportos, as pessoas que passam, as que chegam, as que partem, as expressões, os comportamentos… Eu, como passageiro, prefiro sempre a chegada, nunca a partida nem a espera. 

De viagens pouco há a dizer ou a escrever, é assunto explorado a muitos níveis, até comerciais. Mas o que me traz aqui não são viagens, são caminhadas. O espólio mental que adquiri nestes 14 anos a percorrer caminhos velhos por esse lindo e também velho Portugal, faz com que estas viagens por África, agora frequentes, não sejam para mim “viagens” mas sim o prolongamento em espírito das velhas caminhadas feitas até agora. E quero descrever um bocado do que vejo e sinto, em “crónicas de MerdA”, claro.

Difícil? Sim, difícil… até pela falta das muletas dos meus colegas, diferentes, discordantes, teimosos, mas, talvez por isso, enriquecedores. Aqui nestas caminhadas actuo a solo, que é coisa que gosto pouco. Curto a solidão, mas gosto de sentir por perto a presença de pessoas com quem me identifico. Aqui por exemplo, está muita gente sentada, muita gente a passar, gente gorda, gente magra, miúdas helicóptero, negros, brancos, todos com cara de partida… mas não me dizem nada! É a solidão sozinha que detesto. Porque mesmo no meio deles, não sou ninguém. E eu prefiro ser ninguém, sim, mas no meio de quem me conhece.

Da África do Sul não tenho imagens mentais, não tenho um mapa interior, ideias ou imagens feitas. Unicamente apartheid e Mandela (ah, e o primeiro transplante de coração). E neste momento uma preocupação: como se vai sair o meu inglês aprendido na adolescência, e nunca utilizado na prática, numa altura em que ainda era o francês a língua dominante… Com chineses já experimentei, e deu certo porque eles falam tão mal como eu!

Gritam os altifalantes “Embarque com destino a Joanesburgo, porta 4!” E não era a 4, era a 1. Nem sei para que gritaram

escrito por xapim às 00:49
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Repato de Natal, sim, repasto!

O Conde de Ariz afinal existiu... Pois, mas foi só um! Não deixou descendentes, ficou tudo por por ali: primeiro, último e único.

Deixou pelo menos um largo com o seu nome, onde se situa também uma casa única: a Casa Santos, tasca histórica que já vai pelo menos na terceira geração. Mais histórica a partir de agora: foi finalmente a escolhida para o jantar de natal desta agremiação cAminHeiRoS de MerdA.

Obrigado Eduardo Santos pela fidalguia com que nos recebeu e por aceitar uma pequena excepção no horário habitual da sua antiga e conceituada casa. Os sabores genuínos das moelas, das orelhas, das azeitonas, da salada de bacalhau assado com cebola e alho, o gosto único e quente daquele ambiente acolhedor e cheiroso, o vinho verde tinto colorido e abençoado, fizeram com que aquela hora e meia que durou o repasto e a conversa ficassem bem gravadas nas nossas memórias. Rolaram livros e opiniões, histórias e desabafos, desenterraram-se memórias antigas de juventude, amores e namoros... que a alma também tem boca e estômago. Há um espírito peregrino que abarca caminheiros de todas a espécies e que nestes ambientes ressalta è vista. Nesta Casa Santos respira-se isto tudo. 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como este humilde escriva tem estado deslocado numa "caminhada" mais longínqua que o impede de continuar por agora a pisar com os amigos de MerdA os caminhos velhos costumeiros, foi esta a oportunidade de nos juntarmos todos, o Kim "místico", o Leitão "irmão", o Abraão "circuncidado" e este Xapim "incerto e hesitante". Momentos curtos mas saborosos que acabaram na esplanada do também histórico e idoso café Ribeiro numa conversa sobre carecas com um desconhecido (careca). Uma maneira peregrina de acabar a noite, sim, mas nós sabemos bem que nem só o chão que pisamos é que faz caminhos. Amen.

escrito por xapim às 00:00
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Sábado, 10 de Março de 2012

Bitetos continua a ser lindo

Porto de importancia económica em tempos idos, Bitetos é hoje um local que se está a tornar "cool", usando termo em voga. Turismo fluvial com grandes barcos carregados de turistas de todo o mundo que acostam no cais, praia, marina, motas de água... Mas há ainda resquícios de algumas actividades já praticamente desaparecidas: o barqueiro que atravessa o rio com pessoas e cargas. Tive hoje, no entanto, o privilégio de assistir a uma cena destas e, apanhado desprevenido, consegui no entanto apanhar a parte final e alguns gestos do barqueiro no ambiente bucólico duma manhã de sol e calmaria. O céu espalhando azul na água e o rio sentindo a saudade a cada toque do remo, a história a esvair-se nas pequenas ondas provocadas pelo vento, o barco acostado a pedir a reforma e o barqueiro a insistir na escrita da sua vida até à última letra do abecedário! A diversão via-se nos patos, mas a paz inundava tudo o resto. Eu senti-a fazendo-me parte disto tudo, parte que sou.

 

escrito por xapim às 00:03
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I dream a visitor from Burkinafaso!!!

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