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caminheiros de Merda

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09
Jun20

O CÃO QUE LADRA NO TELHADO AO CÉU AZUL


xapim

 

 

 

 

 

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Gosto de divagar devagar. Prefiro estar fora para me ver bem para dentro, estar longe para me perceber mais completo.

E foi assim que, sentado no meu posto de observação, que fica lá no planeta onde me refugio para uma visão mais alargada, pude ver que algum deus, ainda mal liberto dos braços de Morfeu, virou distraído uma lata de tinta azul que se espalhou pelo espaço. A tinta escorreu calma e uniforme e invadiu também aquele planeta que chamam de azul. Deu-me assim uma vontade enorme de ir visitar o lugar que alguém escolheu para eu viver e usufruir durante o tempo que a areia da ampulheta que me foi atribuída demora a mudar de compartimento. E eu cá vim, a voar em curvas e loopings como gosto de fazer quando o deus dos sonhos me põe durante a noite a desenterrar ambições de criança, num misto de barbatanas e ondulações de corpo, de asas e penas aerodinâmicas.

O colo que nos criou e amamentou é o lugar onde sempre queremos regressar. Sentimos um reconhecimento recíproco, um aconchego, um afago por dentro, sentimos que nos faz ter razão quando pensamos que é bom partir só para que depois a ausência aumente o sabor do regresso e do abraço.

Vila Boa do Bispo, é assim o nome de um dos colos que de vez em quando me acolhe. Onde sou eu, porque foi aí que brotei de corpo e alma, como uma planta brota com caule, folhas e uma flor que a define e lhe traça a classificação na ordem.

As primeiras palavras, as primeiras letras, as primeiras orações. E com isto os primeiros sonhos, aqueles que sonhava deitado no muro que limitava o mundo possível na altura, até ao pôr-do-sol daqueles fins de tarde de verão infindáveis. E não eram pequenos esses sonhos, já construía poisos lá para o meio das estrelas que se anunciavam com o aparecimento da lua.

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E é bom voltar. Calcorrear memórias recordando a “mãe d’água”, aquela passagem na estrada ladeada por velhos muros e matas de grandes árvores onde uma mina assustadora escondia uma qualquer moura encantada. Ali mesmo ao lado a velha torre da igreja do mosteiro milenar, onde subíamos para ver a arte dos sineiros a tocar como convinha as melodias alegres ou tristes, transmitia-nos a segurança que advinha dos ensinamentos que o velho Padre Machado, na sua infinita sabedoria e paciência, nos transmitia dentro daquela imensa igreja. Os castigos carinhosos do prior, aquelas imagens inconfundíveis nas paredes e altares, a ambiência criada quando ele nos mostrava o “livro grande” com pinturas de glória que nos arrancavam óh’s! de espanto, a sandes de queijo nos intervalos, o afago individual na cabeça de cada um ao chegar, são uma herança na memória que cataclismo algum apagará nunca. Deu-nos firmeza de carácter, deu-nos segurança, exatamente a que sinto ao vislumbrar a avenida por onde tanto corri e ao fundo o mosteiro com a velha igreja de histórias e memórias.

Passando o coreto, onde nas festas ouvi as primeiras sinfonias (e que ainda hoje gosto que me acompanhem na escrita), vamos em direcção a outro ponto fulcral desta história de berço, o rio Tâmega. Mal começamos a descer o caminho (agora quase estrada) que os burros do moleiro Albaninho do Alto conheciam de cor e calcorreavam sozinhos e por onde, nos tempos idos, as velhas Volvo subiam a ronronar carregadas de granito, vimos ao fundo o rio engalanado nas suas margens luxuosas de verde e vaidoso no azul que o deus distraído espalhou pelo céu e deixou escorrer para as suas águas. As flores alinhavam-se pela beira do caminho numa procissão alinhada de cores diversas dizendo que não precisam de se preocupar para serem belas, como disse já há muito tempo um bom homem chamada Jesus. As campânulas erguiam-se altivas no meio das outras flores exibindo os sinos alinhados, as lanterninhas muito cor-de-laranja anunciavam-se num muro antigo, e a flor de abóbora chila exibia o seu grande altifalante amarelo de onde parecia que saíam os cantos dos pássaros festejando a passagem de dois caminheiros perdidos.

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E o rio todo azul, espreitando de vez em quando por entre as flores e as árvores ou do outro lado duma rede de arame, ia-se apresentando cada vez mais perto.

Fechei os olhos. Os anos recuaram cadenciados até àquele tempo… e vi os burros do Albaninho acabados de chegar, pelo caminho estreito e pedregoso, junto à pesqueira. Os sacos do milho eram pesados como pesada era a vida de quem os transportava. Os moinhos, instalados em cima das pedras que dividiam o rio, trabalhavam à força da água que só queria seguir o seu caminho natural. A mó tratava dos grãos com carinho e, rodando sempre, fazia a farinha que havia de passar pelo forno de lenha e encher as mesas de pão e de felicidade. Os rolos espremiam as varas do linho que ia fazer toalhas para enfeitar as mesas e as cómodas duma casa portuguesa, com certeza. O Matruco mergulhava junto à margem e desaparecia por longos minutos, acabando com a espectativa dos curiosos ao fazer aparecer a cabeça já lá para o meio do rio. O Zé dos Copos, cigarro impávido no canto da boca, era parte do mundo desde que este existe. De olhos fechados ainda, vi-me aflito numa arriscada e inconsciente entrada no rio sem saber nadar, os pés a falharem, a areia a desaparecer… quase a gritar por ajuda, alguma deusa das águas me deu uma ajuda e eu, sem saber como, saí para a margem segura onde a vida rolava como se nada tivesse acontecido. Fiquei sozinho e mudo no meu pavor sem ninguém saber.

O ruído da cana que levava na mão arrastando-se na terra acordou-me e eu abri os olhos. Comecei a ouvir os cantos afinados e desafiantes dos pássaros, canta um aqui responde outro acolá. Os ramos mais compridos das árvores eram as pautas por onde liam as partituras. O rio continuava ao nosso lado, plano e azul, aqui todo aberto, ali protegido por uma fiada de árvores alinhadas.

Viramos costas ao rio, que agora já não tem histórias velhas para contar, e seguimos por outros caminhos que nos hão-de levar a outras histórias.

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As flores continuaram a acompanhar-nos, agora civilizadas em vasos ou enfiadas nas paredes de pedra do caminho. Um último olhar lá para baixo a dizer um adeus ao rio, que lá estava comprido e azul no seu sossego indiferente. Uma fonte deitava água límpida para um pequeno tanque num ruído cristalino como ela.

À frente, no telhado duma casa velha, um cão preto ladrava desalmado ao céu todo azul.

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Prometi que, ao regressar ao meu posto de observação, farei um desvio no meu voo para passar aqui no telhado da casa que tem um cão que ladra ao céu azul.

02
Fev20

Os ovnis


xapim

IMG_9404.JPGCorremos sempre o risco de sermos abduzidos, mas isto faz parte da vida de um caminheiro. Os caminhos têm a dimensão que lhes queiramos dar, ao pisarmos um caminho velho podemos estar a vaguear por uma nebulosa interestelar qualquer, chegar até aos “Pilares da Criação”, quem sabe. Caminheiro que se preze não tem limites nem quilómetros, não caminha só com os pés. São poemas o que deixa no chão por onde passa, são livros que escreve na mente e folheia todos os dias, são flores que põe no espinho mais agreste, são naves alienígenas que põe numa simples teia de aranha.

Esta caminhada foi feita num mundo estranho, não visível com os olhos do dia-a-dia. Tivemos que passar o portal da quinta dimensão para conseguirmos distinguir o laborioso mundo que se mantém em actividade mesmo ao nosso lado. É privilégio dum caminheiro ver num montinho de musgo os postes de alta tensão, decorados com bolas sinalizadoras, ligados por fortes cabos condutores de energia. Uma singela flor paraboloide recebe do universo todos os sinais que, no entanto, nós não conseguimos decifrar. Uma quantidade anormal de ovnis das mais diversas formas, fazendo lembrar teias de aranha, faz-nos pensar que algo de importante se está a passar. Naves de transporte, naves técnicas, naves de comunicações, até a nave “air force one” ali estava, o que diz tudo sobre o nível da ocorrência. Apurámos os nossos sentidos em relação a tudo o que nos rodeava, até o conhecido pastor das cinco ovelhas nos pareceu estranho… mesmo assim dissemos bom dia e a voz não pareceu monocórdica! Aquela flor cor-de-laranja disfarçava mal um microfone…

O pivete no entanto, caminheiro cão como nós, captou qualquer coisa, como só ele tem capacidades, e andava azafamado na procura! A mensagem fora suficientemente clara, a convicção com que o colega canídeo pesquisava todos os cantos e cantinhos fazia-o crer.

E então aconteceu… o pivete saiu da água com a razão de ser de toda aquela azáfama, a pedra filosofal! Com a obediência própria de quem é o melhor amigo do homem, dirigiu-se à nave mãe, a teia-mor, e entregou aquele bem precioso. A armada de teias levantou em uníssono e, numa única e longa nuvem, ultrapassou as pontes e dirigiu-se lá para os lados do monte de S. Domingos. Boa viagem, alienígenos!

E ficamos nós a pensar… Será que é algo assim que nós procuramos nesta constante viagem? O que nos faz andar nesta procura que não sabemos bem o que é? Que magia têm os caminhos velhos e as suas flores? As ruínas e o ruído das águas? Que magia tem o desleixo de andar quase sem destino nem azimute? Não é a pedra filosofal que transforma em ouro ou dá longa vida, não é o santo graal, não, não é isso! Talvez aquela que nos diz “o sonho comanda a  vida”!

fotos AQUI

19
Jan20

Fui a Fasteilá com pés ligeiros


xapim

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esta noite dormi de seguida sem vírgulas nem pontos e acordei sem reticências ponto final a partir daí fiquei sem limites e fui ver decidido o que o mundo tinha de pontos de admiração para mim pé ligeiro e com pésligeiros lá fui para a magia da manhã fresca e nevoeira de Vila Boa do Bispo que logo no começo me mostrou o sol por trás das árvores lançando uma pérgula de raios de luz num jeito de bom dia caminheiros eu pus o inverno de Vivaldi na música de fundo e apareceu uma clave do sol a espreitar a meio da colina quando fotografei uma pequena ponte o ribeiro manteve-se indiferente na sua função de levar água Vila Boa do Bispo identificou-se numa placa toponímica e levou os pésligeiros todos a Fasteilá e a Valverde o Tâmega envergonhado e sujo do inverno mostrou a água cansada e desviou os olhares para os enfeites que tinha na margem árvores de pé reafirmando que elas não morrem assim mas é assim que vivem orgulhosas belas altivas e aprumadas ao céu e fazem quadros e jogo de cores que pintor algum imaginou fomos a caminho da rua dos Toirais para irmos a uma exposição dos trabalhos duma artista aranha que fez tecidos de engenharia em teias cheias de diamantes alinhados e brilhantes num mundo onde os cães guardam as casas pelo telhado o ribeiro continuava a sua missão escolhendo os melhores sítios para levar a água chegados cá a cima o rio chamou e disse que também era lindo quando espelha o azul que lhe vem de cima e o verde que o acompanha na aventura em direcção ao mar uma flor projectou a sua sombra na parede em forma feia de insecto para fazer sobressair a sua beleza amarela o concerto do inverno do Vivaldi estava mesmo a acabar ponto final antes que comece o da primavera

Para ver fotos, click em FOTOS

15
Jan20

Fomos à caça de duendes


xapim

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Fomos à caça de duendes e gnomos para Vila Boa do Bispo.

O nevoeiro e os bosques desenhavam-nos em cada caminho ou cruzamento. Eles jogavam às escondidas connosco, e eram árvores, troncos secos, eram sombras e musgo verde. Falavam-nos com a voz da água cristalina e corredia, estendiam-se em reflexos verdes no espelho das poças geladas e nós só lhes respondíamos com o fumo que nos saía da boca e algum pavor de uma das suas traquinices.

Já tinham eles passado na rua Moinho do Coelho e na Travessa do Calvário quando lá chegamos. Eram uma flor estranha aqui, um regato acolá, e espreitavam-nos curiosos atrás das grades ou das janelas redondas das casas de pedra velha.

Passamos a Rua do Pombal e vimo-los a sair do espigueiro onde moram para ir brincar com uma fonte humana e vandalizar umas caixas de correio. Na Rua de Cavalhõezinhos tinham umas flores que só eles, com a sua magia, conseguiam fabricar.

Continuamos o nosso caminho pela Rua da Formiga e pela Rua da Senhorinha e eles, disfarçadamente, penduravam-se numa teia de aranha e faziam brilhar como diamantes as pequenas gotículas de água que a compunham. Aquele, mais atrevido, soltou-se dos braços secos de uma árvore e subiu pelo céu todo azul e fez-se nuvem pequenina em forma de fantasma.

Eles andavam por todo o lado, não sei se por ser manhã fria de nevoeiro ou por ser em terra de lendas onde se sentem mais compreendidos no seu mundo mágico.

E vimos uma casinha de pedra com um caminho velho de acesso, vimos um espigueiro em queda amparado por traves (pertença de algum gnomo mais desafortunado), vimos uma poça de água pintada a limo verde e salpicada de laranjas, um presépio onde se divertiam feitos ovelhas ou reis magos, até uma escola onde o escriba aprendeu a ler, isto para as bandas das ruas do Lourido, Leira Longa, Bremes ou Rua dos Tocos.

Chegados à Travessa do Montinho e ao Largo de Lages, era a hora da despedida. Afinal os receios não tinham razão de ser. A companhia dos duendes e dos gnomos foi agradável e divertida, fez-nos sonhar, transformou o frio gelado em quentes jogos de imaginação ajudando-nos a fazer parte da natureza ao vermos vida nas mais pequenas insignificâncias.

Mesmo no fim, para nos olharem finalmente nos olhos sem qualquer truque ou disfarce, fizeram-se gatos preguiçosos ao sol e cães barulhentos dizendo até logo em língua de cão.

…e deram-nos uma flor que fizeram.

ver fotos AQUI

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08
Dez19

Caminhada da Greta


xapim

O nosso mundo é um bocado assim, um reflexo condicionado. Num espelho, seja redondo, quadrado ou disforme, nas águas dum rio, seja ele doce ou violento. Atrai-nos o nevoeiro, sobretudo o sebastião que não chega, atrai-nos a gota de água, sobretudo a sede que nos faz caminhar.

O rio Tâmega foi hoje o nosso poiso. Fomos visitá-lo a Canaveses, onde houve outras pontes com história a unir as duas margens. Uma romana, outra do tempo de D.Mafalda construída por cima, onde o francês Soult do Napoleão não passou. E agora esta. Linda, mas triste e distante. Deita-se na água, estende-se em toda a largura, mas a sua felicidade não é líquida. Esconde, abriga, parece que abraça, mas está ligada a outras margens.

A manhã de nevoeiro e chuva fina e disfarçada punha gotas nas árvores, nas flores e em tudo e a gente dizia que eram lágrimas que iam depois para o rio. Algumas parecia que ficavam nos nossos olhos. Um ribeiro corria desenfreado para um abraço mais largo.

Um barco de madeira envergonhado e sem remos pousava na margem e via talvez reflexos na água, sonhando que era uma marina onde ele estava agasalhado com um toldo e com um motor fora de bordo para se pavonear no rio durante o verão.

Havia árvores junto ao rio que deixavam cair cortinas rendilhadas sobre as águas, desfocando a paisagem ou escondendo pontes verdadeiras ou refletidas. Outras miravam-se nas águas exatamente iguais ao que eram.

E a Greta, pois claro. Ouvimos o Quim Barreiros (que até é natural do Marco!) a cantá-la, mas essa é outra história que não nos interessa agora. Choramos ao ver neste cenário a estupidez humana que deita garrafas de plástico e esferovites na paisagem, no rio, na erva que o ladeia… nos locais mais incríveis! Grande parte do caminho que percorremos faz parte dum percurso pedestre homologado, pelo que seria de supor que este tipo de situações não acontecessem! E falamos na Greta, aquela miúda que tanta gente critica e ataca, “que chamam de fedelha histérica, que não vai à escola, que tem pais irresponsáveis…” e nem um comentário para o problema sobre o qual ela protesta à maneira de quem tem a doença que ela tem! Tenho a certeza que grande parte de quem a critica é quem faz este lixo nas estradas, nos caminhos, nos rios, se calhar também em casa. Não é entendível esta reação generalizada para com a Greta, mas começo assim a perceber a inexistência total de consciencialização ambiental de grande parte da população. Merda!

E choramos nós também. Percebemos o nevoeiro que nunca mais trás o sebastião e as gotas que afinal são lágrimas. Percebemos também porque até as flores choram.

O Pivete, canídeo maltrapilho de MerdA, escavava a terra à procura de não sei o quê. Nem ele, se  calhar.

Para ver fotos clique AQUI

24
Nov19

Fofos lençóis


xapim

O rio Douro dormia ainda sob um fofo lençol de nuvens, indiferente ainda à ansiedade com que os Caminheiros de MerdA se encaminhavam para ele. O costumeiro regresso a este nosso percurso de eleição é como que um reabastecimento ao nosso espírito romeiro. A inquietude disfarçada do rio por baixo desta brancura é a mesma que nos leva a correr montanhas e caminhos velhos na procura constante duma foz que nos deixe finalmente na imensidão que procuramos… e merecemos.

Os cogumelos, reis da época, apresentaram-se logo de início em cores, formas e texturas atraentes. Amanita caesarea, galerina marginata, ganoderma lucidum, tortulhos, míscaros, santieiros, cogumelos e uma nova espécie descoberta pelo irmão Leitão em estreia mundial: o CAGAMELO!

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E chegamos ao silêncio do rio. Estremunhado ainda nos sonhos que o embalaram durante a noite, abraça preguiçosamente o barco ancorado e as árvores que o aconchegam nas margens. As casas são mirones que o observam das encostas, e há plantas que se enfeitam de cores e formas para condizerem com a sua grandiosidade. Estes romeiros maltrapilhos, despidos de qualquer vaidade ou importância, param meditativos na sua margem, num diálogo surdo de meditação transcendental. As águas fazem eco e duplicam as imagens marginais e, como um espelho mágico, dão-lhe formas onduladas e esbatidas.

O Pivete, canídeo maltrapilho e de MerdA como nós, corre veloz pela erva do prado trazendo e levando mensagens verdes de que é o nosso melhor amigo. Lá mais ao fundo, o campanário duma igreja parece segurar a velha ponte de pedra por onde diariamente o comboio se passeia longo e serpenteante.

A rua de Gondinhá, nome de muxima ou de sereia, o caminho de terra como um risco no meio da verdura, levam-nos a recantos de beleza bucólica, a regatos lançados lá do alto tocando sinfonias aquáticas, a famílias felizes de patos coloridos a passear-se com as suas melhores vestes. Algumas flores belas mas discretas, bagas vermelhas e alguns medronhos põem pequenos pontos de cor nesta bebedeira de verde. Que saborosos eram os medronhos…

Uma gruta abrigada debaixo de um penedo conta-nos histórias de pastores ou barqueiros de passagem… ou talvez de algum romeiro como nós, cansado de ir e voltar, que se decidiu por repousar ali das maleitas da vida e desta procura constante pelo caminho que leve a uma resposta final. Que MerdA é esta?

Fotos AQUI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13
Out19

Janelas


xapim

 

às vezes procuro-me porque quero saber de mim e caminho ao sol caminho à chuva vou de manhã porque o dia é mais leve e vou por caminhos velhos porque são os que estão mais perto de serem caminhos e estão quase sempre sozinhos e hoje só vi janelas fiquei sem saber se eu estava lá dentro a espreitar ou cá fora a ver se estava alguém acabei por acreditar na janela da casa que no tecto tinha céu pois eu não tenho limites e então construí um muro para segurar a janela

fiz uma pauta de música no céu

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07
Out19

São rosas senhor...


xapim

Há regueifas, míscaros e gatos, mas... são rosas senhor, são rosas!

(rosas diamantadas o que ficou no portão da minha memória, nem era necessário pendurar a regueifa)

(os caminhos contaram histórias, as histórias contaram os caminhos, os passos esses eram nossos, dois irmãos perdidos no nevoeiro à espera do sol de alcácerquibir)

(os gestos eram de gatos e as palavras mudas)

(bom dia, bom dia, os gatos são 8, não é fernandinha?)

(são rosas senhor, são rosas)

Freguesia de Sande, em 06-10-2019, passeio no nevoeiro

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23
Set19

Shift, o poeta destroçado


xapim

Poema de saudade à minha querida motherboard:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(O Shift escreveu um poema e pediu ajuda ao Seta pr’a Baixo para o lerem todo e verem se havia algum erro.

Para ouvir a opinião final o Shift foi pedir ao Delete…)

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17
Set19

Por acaso, Boelhe


xapim

Podem fazer-se viagens casuais. Quando ao acaso, deviam ser acasuais que é a negação de casual, mas neste caso foi quase. Quase casual ao acaso.

Embora as pontes sobre o mais baixo Tâmega sejam modernices do século passado, as histórias do início da nossa história dizem-nos que a forte ligação entre as duas margens superava qualquer entrave pela sua ausência. As escaramuças com os sarracenos que ainda andavam por aqui, as igrejas e mosteiros que polvilham a região provam que essa dificuldade era superada com arte e bravura.

Numa passagem (a)casual, a igreja de S. Gens de Boelhe, embora quase escondida, chamou-me a atenção ali envergonhada e encolhida ao lado da igreja “nova”… Parei propositadamente para, no silêncio e solidão do momento, melhor observar este monumento “desconhecido”. Fui educado religiosamente na minha infância neste ambiente, cercado por pedras como estas carregadas de história, mistérios e lendas, túmulos pesados, púlpitos e sermões, sinos, arcos, azulejos com imagens de mulheres e coelhos e pássaros com uma pata levantada. Impossível ficar indiferente quando encaro um monumento como este. Lembro o abade, o grande livro com imagens de deus, do céu e dos infernos, a salve rainha, a catequese que me adensava os sonhos de menino…

Ao aproximar-me para lhe observar os vários ângulos, vi um caminho velho contíguo à igreja com uma moderna placa que dizia “rua Rainha D. Mafalda”. Mafalda? Lembrou-me a que passou em Alpendurada e deixou um memorial, e que passou em Irivo, e que passou em Castelo de Paiva, e que acabou no vetusto convento de Arouca onde era religiosa. Terá passado aqui para atravessar o Tâmega? Por esta “rua”? Talvez, até por um acaso acasual como eu.

E fui espreitar fugazmente a história desta igreja baptizada (com “p”) como de S. Gens. Mandada construir não se sabe se pela Mafalda esposa do Afonso nosso primeiro, se pela Mafalda (santa) filha do primeiro Sancho. Que pelos vistos andaram por aqui as duas. Ora então, porque não a mão desta santa também nesta igreja, que não só nos memoriais?

E já que também se diz à boca cheia que esta história da Mafalda (santa) dos memoriais também é lenda, eu posso usar a minha imaginação para inventar e acrescentar que “de facto” ela passou por aqui a caminho de Alpendurada com destino a Arouca. E fiz um mapa, e comparei os arcos e as pedras dos monumentos. Achei giro.

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