Domingo, 11 de Agosto de 2019

O regresso

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            O regresso pressupõe pelo menos uma ida (ou idas), falando de pessoas, coisas, acontecimentos, até de sentimentos. A saudade faz um percurso contrário: quando uma pessoa parte ela vem, quando se chega ela vai. Mas pode ser mais complicado ainda... haver uma troca de saudades. Vai-se a saudade do local a onde se regressou, e vem a saudade do local de onde se partiu! Não sei se a água tem sentimentos, mas a do rio Douro, que fomos visitar neste 11 de Agosto, também vai e depois volta, não sei se com a saudade se com a pressa de depois regressar, se em forma de nevoeiro quando vai e de chuva quando regressa. Mas sim, acredito que este rio tem sentimentos.

           Por falar em regresso, tivemos hoje connosco o amigo TiagoTeixeira, o nosso benjamim há muitos anos! Após 78 SMS trocados no sábado, nada falhou e à hora 30 vezes combinada apanheio-o no local marcado para nos dirigirmos ao início da caminhada, Barragem de Carrapatelo, margem esquerda do rio.

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           Ir e voltar é o ciclo infindável da vida. Os passos que começamos naquela curva de estrada, sob a qual passa um regato apressado em chegar ao rio, são cadências de idas e regressos, um pé avança e fica à frente, logo o outro vai e o primeiro regressa a trás. Nas bermas da estrada, além de grande variedade de plantas e árvores, cresciam silvas enfeitadas com pequenos ramos de amoras, umas vermelhas outras tentadoramente pretas de maduras. Eu e o "irmão" Leitão, vetustos cidadãos de meados do século passado, deliciando-nos com as maduramente mais deliciosas regressamos numa pressinha à nossa infância e lançamos o repto "gostas de amoras? vou dizer ao teu pai que já namoras". Coisa estranha para o Tiago, também do século passado mas dos fins do mesmo e já virado para outras"tecnologias".

          Os cães também regressam. Temos velhas histórias de cães amigos que nos surgiam pelos caminhos, ladravam mas nós traduziamos logo que era a dizer "bom dia, bem vindos" e eles abanavam o rabo. Nós dizíamos "caminheiros como nós" e eles respondiam "cães como nós", e acompanhavam-nos na caminhada enquanto desse ou lhes apetecesse.  Pois hoje fomos visitados  por mais um. Cruzou-se connosco, amarelo, ar de simpático, mas muito receoso. Dissemos "bom dia" na linguagem de cão, e apesar de ele continar o seu camimho reparámos que olhava de lado, e então o convidámos a vir connosco. Muito hesitante de início, e observando-nos de longe meio escondido, lá resolveu acompanhar-nos e mostrou-se simpático mas também carente derretendo-se ao mais pequeno mimo. Abandonado?... Regressou (lá está...) connosco à curva de estrada inicial e os seus gestos de despedida, quando partimos, não conseguimos traduzi-los.

           Míscaros, cogumelos, santieiros em Agosto? Fiquei parvo quando os vi, procurei uma ida qualquer que justifique este seu regressso apressado e não encontrei. Quanto mais conheço o homem melhor consigo traduzir o latir dos cães.

 

Regresso às fragas de onde me roubaram.

Ah! Minha serra, minha dura infância!

Como os rijos carvalhos me acenaram

Mal eu surgi, cansado, na distância. (Miguel Torga)

escrito por xapim às 08:00
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